Por Francisco Tramujas
O PRECEDENTE DE 2010
Em 2010, quando o Brasil vivia a euforia dos sites de compras coletivas, escrevi um artigo — publicado depois no LinkedIn em 2015 — criticando um modelo que parecia revolucionário, mas que carregava dentro de si os sintomas clássicos de um colapso inevitável.
Na época, muitos me chamaram de exagerado. Afinal, gigantes internacionais investiam bilhões naquele mercado. Havia crescimento acelerado, mídia celebrando o novo consumo, investidores encantados e empresários desesperados entrando no jogo para “não ficar para trás”.
Mas existia um problema estrutural, que eu já apontava: o modelo só funcionava enquanto alguém aceitasse perder dinheiro.
O restaurante perdia margem.
O consumidor era condicionado ao desconto eterno.
A plataforma concentrava o lucro.
A experiência se deteriorava.
A percepção de valor evaporava.
E o ponto central, que poucos enxergavam: o modelo destruía o próprio ecossistema que sustentava seu crescimento.
Como eu mesmo descrevi na época, usando o exemplo de um restaurante mexicano:
“Eu sou dono de um restaurante que cobra R$35,00 pelo buffet. Acerto com a administradora da compra coletiva que cobraria R$15,00 por pessoa pelo meu buffet completo, R$20,00 a menos por pessoa. Destes R$15,00 ficaria com R$7,50 e os outros R$7,50 iriam direto para o caixa do site que promove esse tipo de negócio.
Saiu a oferta no site, a minha oferta foi um sucesso. O site de compra coletiva vende 350 cupons a R$15,00, que daria um montante final de R$5.250,00, a minha parte ficou em R$2.625,00. Ou seja, o site de ofertas trouxe 350 pessoas para o meu estabelecimento com o valor que eu arrecadaria com 75 clientes, no qual o meu custo de produção seria também menor.
Só que esse é o menor dos problemas. Eu sou dono do estabelecimento, mas só vou recebendo parte do dinheiro que o cliente pagou quando repassou ao site de compra coletiva o cupom que o cliente entrega no meu restaurante.
Sim, não recebo a vista os R$2.625,00, vou recebendo parcialmente esse valor, mesmo o cliente já tendo pago o valor integral ao site de ofertas. E se o cupom vencer, ou o cliente esquecer de gastá-lo em meu estabelecimento? Só o site de compra coletiva ganha, o cliente fica insatisfeito e também o dono do estabelecimento. Sim a conta que inicialmente eram 350 pessoas pode se tornar 300, e os reles R$2.625,00 pode ser ainda menor, meros R$2.250,00″.
Quinze anos depois, vejo exatamente o mesmo fenômeno acontecendo no Brasil.
Mas agora não estamos falando de cupons de sushi ou buffet mexicano.
Estamos falando de uma epidemia nacional chamada BETS.
E diferente das compras coletivas — que quebraram restaurantes — o estrago agora não é apenas empresarial.
É econômico, social, psicológico e institucional.
A MECÂNICA DO VÍCIO COMO MODELO DE NEGÓCIO
Vamos repetir o mesmo exercício que fiz em 2010, mas adaptado ao trabalhador brasileiro de hoje.
Eu sou um trabalhador brasileiro.
Recebo R$ 3.500 por mês. Tenho aluguel, financiamento, mercado, escola dos filhos e cartão de crédito.
Mas então ligo a televisão.
- O narrador do jogo fala de aposta.
- O comentarista fala de aposta.
- O intervalo fala de aposta.
- O influenciador ostenta ganhos irreais.
- O ex-jogador sorri dizendo que ficou milionário “apostando com responsabilidade”.
- O clube do meu coração estampou uma casa de apostas no peito.
- O campeonato inteiro virou um grande cassino disfarçado de futebol – inclusive o nome Betano Campeonato Brasileiro 2026 e Copa do Brasil Betano 2026.
Então eu penso: “Talvez eu consiga fazer uma renda extra”.
Começo com R$ 20. Depois R$ 50. Depois R$ 100.
Ganhei uma vez. A dopamina entra. O cérebro registra recompensa.
Agora não é mais entretenimento. É compulsão.
E aqui mora o centro do problema, assim como nas compras coletivas:
As bets não vendem apostas. Vendem expectativa emocional.
Exatamente como as compras coletivas não vendiam refeições. Vendiam a ilusão do “grande negócio”.
O MODELO SÓ FUNCIONA ENQUANTO A MASSA PERDE
Essa talvez seja a parte mais importante da discussão — e a mais ignorada.
Uma casa de apostas não prospera quando o apostador ganha. Ela prospera quando milhões perdem continuamente pequenas quantias.
O lucro estrutural do sistema depende matematicamente da perda coletiva.
É diferente de uma indústria produtiva.
Uma fábrica produz riqueza. Uma empresa de tecnologia gera produtividade. Uma indústria cria empregos, exportações e cadeia econômica.
A bet? Ela drena renda da população.
Dados recentes (2024/2025) indicam que brasileiros movimentam algo próximo de R$140 bilhões por ano em apostas online. Segundo o Gross Gaming Revenue (GGR) — o valor que efetivamente fica com as casas — deve atingir R$37 bilhões) em 2025, consolidando o Brasil como o quinto maior mercado de apostas online do mundo, atrás apenas de Estados Unidos, Reino Unido, Itália e Rússia.
Parte relevante desse capital sequer permanece no Brasil, já que muitas operações possuem estruturas internacionais, paraísos fiscais ou complexos sistemas financeiros fora do país. Ou seja: é uma gigantesca transferência de renda da população para plataformas digitais.
O dinheiro sai do consumo. Sai do varejo. Sai do pequeno comércio. Sai do restaurante. Sai do turismo. Sai da economia real.
E vai para plataformas cujo produto principal é a probabilidade estatística contra o próprio cliente.
O PARADOXO MORAL DA SOCIEDADE BRASILEIRA
Aqui entramos na parte mais hipócrita de toda essa história.
- Clubes falam em responsabilidade social… enquanto estampam bets nas camisas.
- Influenciadores falam sobre saúde mental… enquanto promovem cassino para adolescentes.
- Ex-jogadores falam em legado… enquanto ensinam apostas em redes sociais.
- Políticos discursam sobre combate ao endividamento… enquanto recebem pressão de lobistas do setor.
E talvez o maior símbolo dessa contradição seja a própria Grupo Globo.
Durante décadas, o grupo construiu campanhas contra vícios, combate ao tabagismo, alcoolismo e defesa do consumo consciente.
Hoje, por meio da parceria com a MGM Resorts International (gigante mundial dos cassinos), lucra direta e indiretamente com um setor que transforma compulsão em modelo de negócio.
A associação escancara algo ainda maior:
O entretenimento virou plataforma financeira de captura emocional.
O futebol deixou de ser espetáculo. Virou funil de aquisição de clientes para apostas.
O jogo agora não acontece apenas dentro do campo.
A monetização acontece na ansiedade do torcedor.
E O IMPACTO NA SAÚDE MENTAL?
Esse talvez seja o ponto mais grave e menos debatido.
A explosão das bets não acontece em um país economicamente saudável.
Ela acontece em uma sociedade já emocionalmente exausta:
- Endividamento recorde (77,9% das famílias, segundo CNC).
- Ansiedade crescente (Brasil é o país mais ansioso do mundo, segundo OMS).
- Depressão (afeta 5,8% da população).
- Pressão financeira.
Nesse ambiente, a aposta deixa de ser lazer.
Vira esperança financeira.
E esperança financeira desesperada é território perigosíssimo.
Estudos internacionais (Lancet Psychiatry, 2023; Journal of Behavioral Addictions) já associam vício em apostas a:
- Crescimento de depressão.
- Compulsão financeira.
- Rupturas familiares.
- Aumento de pensamentos suicidas (até 2x mais frequentes entre apostadores problemáticos).
O mais perverso:
O sistema é desenhado exatamente para estimular repetição compulsiva.
Notificações. Odds dinâmicas. Quase acertos. Recompensas instantâneas. Gamificação. Bônus. Cashback. Rodadas grátis.
Não é coincidência.
É neurociência aplicada ao consumo compulsivo.
As compras coletivas destruíam margem.
As bets destroem autocontrole.
E os números oficiais já mostram o resultado prático: o Ministério da Fazenda registrou 217 mil pedidos de autoexclusão em apenas 40 dias de funcionamento da ferramenta. Isso significa 217 mil brasileiros que reconheceram — tardiamente — que haviam perdido o controle.
LAVAGEM DE DINHEIRO E EVASÃO DE DIVISAS
Outro ponto pouco debatido é o potencial de fragilidade regulatória.
Em diversos países, órgãos reguladores (como a UK Gambling Commission e a AUSTRAC na Austrália) já apontaram riscos envolvendo plataformas de apostas online e possíveis usos para lavagem de dinheiro, ocultação patrimonial e movimentações internacionais difíceis de rastrear.
E aqui existe um fator crítico:
O Brasil ainda constrói sua estrutura regulatória para o setor — com a lei 14.790/2023, que regulamenta as apostas de quota fixa, mas cuja efetividade ainda é incerta.
Enquanto isso, bilhões circulam diariamente em um ambiente altamente digital, veloz e transnacional.
O risco?
Transformar o país em uma gigantesca economia de extração emocional e financeira.
QUEM SÃO OS GIGANTES? O RANKING DAS 20 MAIORES BETS DO BRASIL
A essa altura, caro leitor, você já deve estar se perguntando: “Afinal, quem são os agentes dessa gigantesca drenagem de renda?” Pois bem, eis a resposta.
De acordo com estudo das consultorias Blask e brmkt.co, intitulado “Brazil’s Betting Brands Report” (2025), o Brasil deve encerrar o ano com um Gross Gaming Revenue (GGR) de aproximadamente **US 37 bilhões).
Abaixo, o ranking completo das 20 maiores casas de apostas em operação no Brasil em 2025:
| Posição | Marca | Faturamento (GGR) | País de Origem |
| 1º | Betano | US$ 1,429 bilhão | Grécia |
| 2º | Bet365 | US$ 741 milhões | Inglaterra |
| 3º | Sportingbet | US$ 540 milhões | Inglaterra |
| 4º | Esportes da Sorte | US$ 425 milhões | Brasil (fundada em 2018) |
| 5º | Superbet | US$ 361 milhões | Romênia |
| 6º | Betnacional | US$ 359 milhões | Brasil (parte do Flutter Brazil) |
| 7º | 7Games | US$ 285 milhões | Brasil (One Internet Group) |
| 8º | EstrelaBet | US$ 175 milhões | Brasil |
| 9º | VaideBet | US$ 164 milhões | Curaçau (Betpix N.V.) |
| 10º | Onabet | US$ 143 milhões | Brasil |
| 11º | Blaze | US$ 115 milhões | Curaçau |
| 12º | H2Bet | US$ 97 milhões | Brasil |
| 13º | Pixbet | US$ 85 milhões | Brasil |
| 14º | Bet7K | US$ 83 milhões | Curaçau |
| 15º | CassinoPix | US$ 81 milhões | Brasil |
| 16º | Betão | US$ 74 milhões | Brasil |
| 17º | Novibet | US$ 72 milhões | Grécia |
| 18º | BullsBet | US$ 67 milhões | Brasil /Curaçau |
| 19º | Betfair | US$ 58 milhões | Irlanda |
| 20º | KTO | US$ 54 milhões | Malta |
Fonte: Blask e brmkt.co, “Brazil’s Betting Brands Report”, 2025.
O QUE ESSES NÚMEROS REVELAM
Vamos aos destaques que interessam — e que deveriam envergonhar muita gente:
- A hegemonia da Betano
Com impressionantes US$ 1,43 bilhãoem faturamento bruto, a Betano não apenas lidera — ela esmagaa concorrência. Sozinha, responde por aproximadamente 23% de todo o mercado regulado brasileiro. Entre janeiro e outubro de 2025, sua participação cresceu de 17,28% para 25,52% do BAP (Brand’s Accumulated Power). É o equivalente, no mundo das apostas, ao que a Globo foi na TV aberta — um monopólio de fato.
- O pelotão dos bilionários
Bet365 e Sportingbet completam o pódio, formando um trio que, junto com Esportes da Sorte e Superbet, ultrapassa a casa dos US$ 3,5 bilhõesem faturamento combinado. Para efeito de comparação: isso é mais do que o PIB de centenas de municípios brasileiros.
- A nova-velha conhecida: BetMGM (Grupo Globo + MGM Resorts)
Ainda não está no ranking de 2025 porque seu lançamento ocorreu no início do ano, mas a parceria entre o Grupo Globo e a MGM Resorts Internationalpara operar a BetMGMno Brasil é um símbolo de tudo o que há de errado nessa história.
A MGM — dona de cassinos em Las Vegas e especialista mundial em extração de valor de jogadores compulsivos — uniu-se ao maior conglomerado de mídia do país, aquele que por décadas nos ensinou a combater vícios como tabagismo e alcoolismo.
A ironia é tão pesada quanto o dinheiro que será drenado.
O MESMO ERRO, AGORA EM MAIOR ESCALA
O ponto mais curioso é que o colapso potencial das bets possui semelhanças impressionantes com o colapso das compras coletivas — que eu já descrevi em detalhes em 2010.
| Compra Coletiva | Bets |
| Consumidor condicionado ao desconto eterno | Apostador condicionado ao ganho ilusório |
| Estabelecimento perdia valor | Dinheiro da economia real evapora |
| Sistema saturada rapidamente | Compulsão exige estímulos cada vez maiores |
| Cliente oportunista não fidelizava | Sustentabilidade social do modelo entra em colapso |
| Margem evaporava | Credibilidade institucional começa a ruir |
E existe um fator ainda mais importante:
O crescimento das bets parece infinito… até que a sociedade começa a perceber o custo real.
Foi exatamente assim com:
- Cigarros (décadas de negação até o choque de saúde pública).
- Bebidas alcoólicas em determinados contextos (direção, gravidez).
- Pirâmides financeiras (sempre colapsam quando o fluxo de novos entrantes seca).
- Compras coletivas (colapsaram em 2013-2015, exatamente como eu antecipei).
Toda bolha sustentada por euforia emocional ignora o desgaste estrutural até o ponto de ruptura.
QUEM GANHA? (E QUEM PERDE)
Essa é a pergunta central — e a resposta é brutal.
| Quem? | Ganha? |
| Pequeno comerciante | Não |
| Economia nacional | Não |
| Famílias endividadas | Não |
| Clubes de futebol (curto prazo) | Sim |
| Influenciadores (curto prazo) | Sim |
| Emissoras (curto prazo) | Sim |
| Plataformas de aposta | Absurdamente, no curto prazo |
Mas o país perde no longo prazo.
Porque nenhuma sociedade cresce sustentavelmente transformando ansiedade coletiva em modelo de monetização.
As compras coletivas nos ensinaram que nem todo crescimento acelerado representa sustentabilidade.
As bets talvez estejam ensinando algo ainda mais perigoso:
Nem toda inovação financeira representa progresso social.
E talvez o Brasil descubra isso tarde demais.
O QUE ELES NÃO QUEREM QUE VOCÊ VEJA
Por trás desses bilhões — Betano, Bet365, Sportingbet, Esportes da Sorte, Superbet, KTO e tantas outras — há uma verdade incômoda que os patrocinadores, as emissoras e os influenciadores jamais mencionam:
Cada real apostado é uma aposta contra a própria probabilidade. A casa sempre vence. O mercado é desenhado para que a vasta maioria perca.
As 20 maiores bets do Brasil não geram emprego produtivo, não exportam tecnologia, não fortalecem a indústria nacional. Elas apenas extraem.
Extraem do trabalhador que sonha com a virada de mesa.
Extraem da mãe que acredita poder pagar o material escolar com uma “aposta segura”.
Extraem do jovem que vê no celular uma promessa de riqueza fácil.
E enquanto extraem, patrocinam o futebol que você ama. Estampam a camisa do seu time. Pagam o programa que você assiste. Sorriem no rosto do seu ídolo.
O sistema foi normalizado. E a normalização é a maior vitória deles.
NOTA DO AUTOR
Este texto foi escrito propositalmente no mesmo estilo direto, provocativo e estrutural do meu artigo de 2010 sobre compras coletivas (leia aqui).
Na época, fui chamado de alarmista. O tempo me deu razão.
Agora, o cenário é mais grave. O que está em jogo não é margem de restaurante — é saúde mental, patrimônio familiar e integridade econômica do país.
Não se trata de proibir o entretenimento.
Trata-se de chamar pelo nome: vício estruturado como negócio não é inovação. É exploração.
E enquanto a sociedade não reagir — enquanto torcermos para times patrocinados por bets, enquanto aplaudirmos influenciadores que promovem cassinos, enquanto fingirmos que “cada um faz o que quer com seu dinheiro” — os lucros de curto prazo continuarão destruindo o longo prazo.
O ranking das 20 maiores não é uma celebração do empreendedorismo.
É um retrato da extração.
Assim como em 2010, muitos dirão que sou exagerado. Que “as bets vieram para ficar”. Que “é entretenimento”. Que “quem aposta tem responsabilidade”.
O tempo, mais uma vez, mostrará quem está do lado certo da história.
Que fique registrado.
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