Sou um cara que não tem medo. Ou pelo menos gosto de acreditar que não tenho.
Altura nunca foi problema. Já encarei a segunda maior tirolesa do mundo, na África do Sul, com um sorriso no rosto e uma empolgação quase infantil. A Big Tower do Beto Carrero, por exemplo, é uma das vistas mais bonitas que já tive — e a queda, sinceramente, é divertida.
Animais perigosos também não me impressionam. Aranhas, escorpiões, morcegos, ratos, cobras… nas poucas vezes em que precisei lidar com algum deles, fui voluntário. Não por bravura, mas por uma calma prática. Respeito o risco. Mas não recuo.
Escuro nunca foi problema. Desde pequeno atravessava a casa de madrugada sem acender uma única luz. Filmes de terror, monstros, zumbis… sempre achei tudo meio entediante. A Gihane pode confirmar.
A morte? Não que eu flerte com ela, mas tenho consciência de que chega para todos. E, dentro do possível, fiz as pazes com essa ideia.
Altura, bicho, escuridão, morte e outras fobias mais. Tudo sob controle.
Mas existe uma coisa neste mundo que me desmonta completamente.
Odontofobia. Ou, medo de Dentista, se preferir.
E, como todo medo respeitável, o meu tem história de origem.
Eu tinha uns 17 anos quando começou uma dor no dente da frente, do lado esquerdo. Não era constante. Era pior. Ia e voltava… mas nunca ia embora de verdade. Ficava ali. Esperando. Sempre fui meio avesso ao uso de remédios. Achava que dava conta. Que passava. Que o corpo resolvia.
Não resolveu.
A dor cresceu. Veio o inchaço. E, com ele, a constatação inevitável: eu tinha passado do ponto. Fui ao dentista mais próximo da firma.
O homem tinha mais tempo de profissão do que eu de vida. Daqueles que você olha e entende que ele já viu de tudo. Inclusive gente como você, que deixou chegar onde não devia. Sentei na cadeira. Ela reclinou. Ligou aquela luz ofuscante e examinou. Veio o veredito:
— Canal.
Tentou anestesiar. Nada.
Tentou de novo. Nada.
A terceira pra tirar a teima. Necas-de-pitibiriba.
A inflamação era tanta que a anestesia simplesmente não funcionava. Ele então disse, com uma tranquilidade que até hoje me intriga:
— Vamos ter que fazer sem anestesia.
O que aconteceu depois não cabe muito bem em explicação técnica.
Cabe em sensação. Som. Pressão.
Dor.
Se existe alguma equivalência moderna para tortura medieval, provavelmente passa por uma cadeira reclinada, uma luz na cara e um instrumento metálico fazendo exatamente o que você sabe que ele vai fazer… sem que você possa evitar. Naquele momento, eu confessaria o mais hediondo crime. Não sentia que Deus havia me abandonado, mas certamente, estava sentado foleando alguma revista na sala de espera. O bom é que não lembro de tudo e não é força de expressão. Minha memória decidiu arquivar parte desse episódio traumático em algum lugar inacessível. Um gesto raro de misericórdia. Mas não por completo. Alguns flashes, ecos que ressoam até os dias de hoje.
Os anos passaram. Precisei ir ao dentista outras vezes, claro. A vida cobra e, em todas elas, os ecos daqueles fragmentos de memória se fazem presente e o corpo reage antes da razão.
Cadeira. Luz. Instrumento. E eu suando.
Uma vez fui atendido por uma dentista extremamente delicada. Procedimento perfeito. Indolor. Técnica impecável. Mas eu suei tanto — mais que pecador na igreja — que minha camiseta nas costas podia ser torcida. A cadeira saiu marcada.
Hoje, quando levo meus filhos ao dentista, a situação piora. Se não posso esperar do lado de fora, fico ali, assistindo. Me contorcendo por dentro e por fora a cada movimento.
É ridículo! Um homem adulto, barbado, com medo de dentista.
Eu sei. Eu admito!
Mas tem medo que não se resolve com lógica. Porque coragem não é ausência de medo.
É só a ilusão de controle… até alguém reclinar a cadeira, acender uma luz e te lembrar que existe um lugar muito específico onde você ainda não manda em nada.