A carne, o burro e o colapso que não cabe na narrativa — nem na sua omissão.
Por Francisco Tramujas

Li recentemente na Gazeta do Povo um artigo da jornalista Jocelaine Santos. Usei a palavra jornalista por força do hábito — porque o texto que ela entregou em nada lembra a profissão.
O artigo ostenta um título provocador — “O que é pior: comer carne de burro ou passar a vida inteira como tal?” — que promete uma resposta inteligente ao suposto consumo de carne de burro na Argentina. A promessa era de análise. A expectativa, de profundidade.
O que se lê, porém, é um amontoado de frases feitas, respostas rasas e atalhos retóricos que não passariam em uma prova de redação do ensino médio.
Pior: o texto usa meias verdades como cortina de fumaça para não explicar o colapso financeiro que a Argentina atravessa. Em vez de dados, metáforas. Em vez de causalidade, desvio narrativo. Em vez de jornalismo, deboche travestido de erudição.
Comecemos pelo dado que separa narrativa de realidade: a trajetória do peso argentino frente ao dólar.
Peso argentino versus dólar norte-americano — o colapso em perspectiva (valores aproximados, didáticos):
- 2001 (pré-crise): 1 ARS ≈ 1 USD (paridade artificial).
- 2010: 1 USD ≈ 4 ARS.
- 2015: 1 USD ≈ 9–10 ARS.
- 2019: 1 USD ≈ 60 ARS.
- 2022: 1 USD ≈ 150–200 ARS (oficial); paralelo muito acima.
- 2023 (fim do governo Fernández): 1 USD ≈ 350–400 ARS (oficial); “blue” entre 800 e 1.000 ARS.
- 2026 (contexto atual): 1 USD ≈ 1.420 ARS (oficial, venda no Banco Nação); dólar blue em torno de 1.415 ARS.
A grande novidade de 2026: a brecha entre o câmbio oficial e o paralelo despencou para menos de 2% — algo impensável em 2022/2023. O peso, embora ainda profundamente desvalorizado na janela histórica, entrou num período de apreciação real.
Projeções do Banco Central Argentino para dezembro de 2026 situam o dólar oficial entre 1.700 e 1.716 ARS. Ou seja, mesmo com estabilidade, o horizonte continua sendo de desvalorização lenta e gradual.
Tradução em uma linha: o peso argentino perdeu mais de 99% do seu valor em duas décadas — e agora tenta respirar.
Com isso em mente, qualquer comparação de preços que ignore esse contexto é, no mínimo, intelectualmente desonesta.
A refutação definitiva (e implacável) ao artigo publicado na Gazeta do Povo
- Quando o jornalismo começa pelo efeito e esconde a causa — por escolha própria
Jocelaine Santos acerta ao dizer que o consumo de carne de burro não é prática generalizada na Argentina. Ponto para ela. O problema é que ela usa esse acerto como escudo para ignorar deliberadamente o colapso mais brutal da economia argentina nas últimas décadas.
Ela escreve: “Eis que virou notícia – já velha, dada a avalanche diária de notas e contranotas – que, na Argentina, as pessoas estariam ‘comendo carne de burro’.”
Bonito. Irônico. Inteligente. E completamente vazio.
Porque ela não pergunta: por que essa notícia pegou? Por que ela ecoou? Por que milhares de pessoas viram sentido na ideia de que argentinos estariam recorrendo a carnes alternativas?
A resposta é simples e ela se recusa a dar: porque a carne bovina na Argentina ficou impraticável para uma parcela gigante da população. O consumo de carne bovina na Argentina despencou para níveis nunca antes vistos: dos 73 kg/habitante/ano em 2019, caiu para 39 kg em 2024. Quarenta e nove por cento de queda em cinco anos. Mas a jornalista prefere falar de coelhos nos anos 80 no Brasil – momento em que no Brasil a crise econômica também era gravíssima.

A pergunta real nunca foi sobre o burro. Nunca foi. Sempre foi sobre o preço da carne bovina ter se tornado inacessível para parte significativa da população argentina. Ela sabe disso. Você sabe disso. E mesmo assim, ela escolheu não escrever sobre isso.
Isso não é jornalismo. É cortina de fumaça.
- Cultura argentina não é detalhe — é o centro da análise. E ela ignorou.
Na Argentina, carne não é alimento: é identidade, tradição, capital social. Quando o consumo cai à metade em cinco anos, não se trata de “substituição alimentar” ou “diversificação de proteína”. É perda de padrão de vida. É humilhação econômica. É um país que se orgulhava de “estar à altura da Europa” assistindo seu prato nacional virar artigo de luxo.
Ignorar isso — como Jocelaine fez — equivale a analisar o Brasil sem considerar arroz e feijão. Equivale a escrever sobre a Itália sem mencionar as famosas pastas (ou massas). É não querer enxergar o óbvio porque o óbvio atrapalha a narrativa.
- O número que desmonta o texto inteiro dela (e que ela propositalmente ignorou)
Jocelaine fala em preços. Compara. Contextualiza. Bonitinho.
Mas ela ignora o fator que explica tudo: a destruição do peso argentino.
O câmbio saiu de 10 ARS/USD para mais de 1.400 ARS/USD. A moeda argentina perdeu 99,3% do seu valor em duas décadas. Isso significa que, em 2026, você precisa de cento e quarenta vezes mais pesos para comprar um dólar do que precisava em 2015.
Ela não menciona isso em nenhum momento. Porque se mencionasse, teria que explicar que os preços internos em moeda local explodiram — mas que isso não significa que a carne ficou 14.000% mais cara em termos reais. Significa que a moeda deixou de existir como referência de valor. Sem esse ajuste, qualquer número vira propaganda. E o texto dela é só propaganda.
- O erro técnico imperdoável de quem se diz jornalista
Comparar preços nominais ao longo do tempo — como ela fez — não é suficiente. Isso é erro de calouro de faculdade de jornalismo.
O que importa é: salário real, inflação acumulada, capacidade de consumo, cambio.
Sem isso, você mede etiqueta. Não mede acesso. Você faz número bonito. Não faz análise. E o texto dela é precisamente isso: um amontoado de números soltos sem conexão com a realidade macroeconômica do país que ela supostamente analisa.
Ela escreve, literalmente: “Como mostrou a Gazeta do Povo, não era nada disso”. Ah, não era? Então me explica o consumo de carne bovina cair 49% em cinco anos? Me explica a renda média argentina ter encolhido 12% só em 2024? Me explica 57% das crianças argentinas estarem abaixo da linha da pobreza?
Não era nada disso? O que era, então? Mentira coletiva? Imaginação popular?
O pior cego é o que não quer ver. E Jocelaine não quer ver. Talvez porque ver a verdade doa na narrativa que ela quer vender.
- A falácia da “normalidade global” — o refúgio dos desonestos
Ela diz: criações alternativas à carne bovina são comuns em todo o mundo. Dá exemplo de coelhos no Brasil nos anos 80. Fala que carne de equinos é tradicional na Europa.
Verdade. Irrelevante. É a falácia favorita de quem quer minimizar um problema: normalizar o anormal.
Há uma diferença brutal entre:
- Escolha de consumo (um europeu que OPTA por comer carne de cavalo porque faz parte da cultura local).
- Restrição econômica (um argentino que é obrigado a buscar proteínas alternativas porque o preço da carne bovina triplicou em dólares nos últimos cinco anos).
Na Argentina dos últimos anos, em muitos casos, não foi escolha. Foi adaptação forçada. Foi sobrevivência. E ela trata como se fosse um simples experimento culinário patagônico.
Isso não é análise. É deboche disfarçado de erudição.
- O desvio narrativo clássico: quando a Argentina vira pano de fundo para falar do Brasil
O texto de Jocelaine literalmente abandona a Argentina no meio e migra para: “Nas terras brasileiras, o que alguns chamam de ‘sistema’, ‘elite’, ‘supremo poder’ ou ‘salvadores da democracia’ vem tratando a população como se fosse uma grande ‘burricada'”.
Recurso clássico de quem não tem argumento: muda-se o foco emocional. A Argentina vira um mero trampolim para falar do Brasil. O problema real — o colapso econômico argentino — é simplesmente ignorado.
Isso não é jornalismo investigativo. É jornalismo de atalho. É escrever sobre a casa do vizinho para não olhar para o próprio quintal. E pior: é usar a desgraça alheia como metáfora para criticar os algozes domésticos. A Argentina não é um exemplo. É um personagem. E os argentinos — reais, com fome real, com carne real saindo do prato real — são apenas figurantes no teatro narrativo dela.
Isso não responde à pergunta central: o argentino ficou mais pobre? Ficou muito. E o texto dela faz de tudo para não admitir.
- A resposta que o texto evita (e o leitor atento percebe)
Sim. O argentino ficou mais pobre.
Os dados são implacáveis:
- Inflação acumulada em 2024: 117,8%.
- Inflação acumulada em 2025: 89,3%.
- Projeção para 2026: 26,1%.
- Perda de renda real desde 2019: mais de 18%.
- Pobreza na Argentina: 53% da população (2024), subindo para perto de 57% em 2025.
- Consumo de carne bovina: caiu de 73 kg/habitante/ano (2019) para 39 kg (2024).
Isso não é narrativa ideológica. É macroeconomia básica. É dado do INDEC, do FMI, do Banco Mundial. Não é opinião. É fato.
Ela escolheu não colocar nenhum desses números no texto. Porque o texto dela não é sobre a Argentina. É sobre uma metáfora. É sobre um espantalho narrativo. É sobre desviar a atenção da catástrofe econômica que ela se recusa a nomear.
- O verdadeiro problema: jornalismo sem causalidade, com muito deboche
O artigo de Jocelaine faz:
- Observação pontual.
- Ironia barata.
- Metáfora de mau gosto.
- Opinião travestida de fato.
- Desvio de foco para o Brasil.
Mas não faz o principal:
- Explicar causa e efeito.
- Conectar política econômica com impacto real.
- Contextualizar dados com honestidade.
- Responder por que a carne bovina sumiu da mesa argentina.
Sem isso, sobra apenas uma coisa: narrativa confortável para quem já concorda.
Ela escreve para a bolha. Para quem já odeia o sistema, o supremo, a elite. A Argentina é só um pretexto. O sofrimento argentino é só um adereço. A fome — real, concreta, documentada — vira pano de fundo para um texto sobre burros e chicote no lombo.
Isso não é jornalismo. É entretenimento para autocomplacente.
A coluna que faltava (e que ela propositalmente ignorou): o preço da desindustrialização
Mas há um ponto que Jocelaine Santos nem toca — e que expõe a verdadeira natureza do colapso argentino. Um ponto que toda análise séria sobre a Argentina deveria incluir.
A Argentina não apenas destruiu sua moeda. Acelerou deliberadamente a desindustrialização.
Como?
Retirando barreiras protecionistas. Abrindo as importações de forma indiscriminada. Eliminando incentivos ao setor industrial. Empurrando o país para uma especialização regressiva: viver de commodities agrícolas.
O resultado: mais de 22 mil empresas fecharam entre 2024 e 2026. A indústria manufatureira caiu 8,7% em fevereiro de 2026 na comparação anual, com 14 das 16 divisões industriais registrando queda. A produção de equipamentos e aparelhos despencou 24,6%, o setor automotivo caiu 24%, têxteis e calçados recuaram 22,6%.
Exemplos concretos — porque dados sem nome são só números:
- Whirlpool Argentina: fechou sua fábrica em Pilar após 65 anos de operação. Demitiu 300 trabalhadores e transferiu parte da produção para Rio Claro, interior de São Paulo. A empresa importou 67 mil máquinas de lavar em 2025 — mais do que o dobro de 2023 — enquanto as compras de insumos locais caíram a praticamente zero.
- FATE (Fábrica Argentina de Neumáticos): fabricante de pneus com 86 anos de história. Anunciou fechamento com demissão de 920 funcionários, incapaz de competir com pneus importados da Ásia. O sindicato local classificou como “o maior desastre industrial da década na província de Buenos Aires”.
- Lumilagro: a tradicional fabricante de garrafas térmicas para mate — símbolo nacional, presente em 9 em cada 10 lares argentinos. Fechou seu forno de vidro. Cortou seu quadro de 160 para 60 funcionários. E agora importa da China os produtos que vende com sua própria marca. A garrafa térmica “argentina” é feita a 19 mil km de distância.
- Ilva: fabricante de cerâmica com mais de 50 anos. Fechou sua fábrica em Pilar. Trezentos ex-funcionários acamparam em frente à unidade por 47 dias exigindo indenização. A empresa citou “inviabilidade econômica frente à concorrência desleal de produtos importados”.
- Tecnología de Punta (TDP): fabricante de autopeças com 40 anos de mercado. Fechou em janeiro de 2026 com demissão de 450 trabalhadores. A carta de despedida dos funcionários terminava com: “Fica a pergunta que não quer calar: quem será o próximo?”
- Mais de 100 MIL empregos industriais formais foram destruídos em dois anos. O setor perdeu, em média, 1.000 a 1.500 postos por mês. A informalidade disparou para 43%. O salário industrial médio real caiu 27% em dólares desde 2020.
Enquanto isso, o agro — setor primário — virou o carro-chefe da economia.
A Argentina se satisfaz em ser uma grande fazenda do mundo. O problema? O campo gera a pior margem de ganho para o país (o valor agregado fica na commodity, não na industrialização) e os menores salários (o trabalho rural é menos qualificado, menos remunerado e menos intensivo em mão de obra do que a indústria).
Enquanto isso:
- O agronegócio responde por 35% do PIB argentino.
- Mas emprega apenas 6% da força de trabalho.
- O salário médio rural é 40% menor que o salário industrial médio.
- A produtividade industrial (valor agregado por trabalhador) é 3,2 vezes maior que a produtividade agrícola.
A Argentina trocou fábricas por contêineres. Trocou empregos industriais estáveis por trabalho informal. Trocou valor agregado por grão a granel. Trocou desenvolvimento por subsistência.
E o que Jocelaine Santos escreveu sobre isso? NADA.
Ela escreveu sobre “chifre em cabeça de cavalo”. Sobre “burros” e “chicote no lombo”. Sobre “supremo poder” e “salvadores da democracia”.
Mas sobre argentinos reais perdendo empregos reais? Sobre fábricas centenárias virando pó? Sobre 22 mil empresas fechando? Sobre um país que um dia teve uma das indústrias mais pujantes da América Latina agora importando até garrafa térmica da China?
SILÊNCIO TOTAL.
Não é omissão. É escolha. E escolha, em jornalismo, é posicionamento.
- A diferença entre análise e militância elegante
Uma análise séria sobre a Argentina diria:
- A Argentina atravessou — e ainda atravessa — um ajuste econômico severo.
- Há distorções acumuladas por décadas que nenhum governo conseguiu resolver.
- O impacto no consumo real é dramático, documentado e indiscutível.
- A queda no consumo de carne bovina é um dos vários indicadores de perda de bem-estar, ao lado de pobreza, inflação e desindustrialização.
- O futuro, embora com sinais de estabilização cambial rara, ainda é incerto.
O texto de Jocelaine prefere:
- Ironia barata (não ironia inteligente).
- Desvio de foco sistemático.
- Simplificação grosseira.
- Deboche como recurso retórico.
Isso não é análise. É militância elegante. É escrever para quem já concorda, usando um verniz de sofisticação que não resiste a cinco minutos de dados reais.
Ela não quer explicar a Argentina. Ela quer usar a Argentina. Como metáfora. Como espantalho. Como desculpa para falar do Brasil. E no meio do caminho, os argentinos — reais, com fome real, com crise real — são apagados da própria história.
Se isso é jornalismo de opinião, então a opinião está matando o jornalismo.
Por fim — sendo direto e sem filtro
A Argentina não virou um país que come carne de burro. Isso é fato. A Jocelaine está certa nisso. Ponto para ela.
Mas o que ela não diz — propositalmente — é que a Argentina virou um país onde:
- A moeda perdeu 99,3% do valor em duas décadas.
- O poder de compra encolheu 18% desde 2019.
- A pobreza atingiu 57% da população.
- A indústria foi sacrificada no altar da abertura descontrolada.
- Mais de 22 mil empresas fecharam.
- 100 mil empregos industriais desapareceram.
- O país se contenta em ser o celeiro do mundo — com os salários mais baixos e a menor margem de ganho.
- O consumo de carne bovina caiu 49% em cinco anos — o dado que ela mais queria esconder.
O problema de Jocelaine Santos não é o erro factual sobre o burro.
O problema é o erro de profundidade. É a recusa deliberada de olhar para o colapso argentino de frente. É o uso do sofrimento alheio como metáfora para falar de outra coisa.
Quando o jornalismo escolhe não explicar a causa — quando escolhe o deboche em vez da análise, a metáfora em vez do dado, o desvio em vez da profundidade — ele não está informando.
Ele está conduzindo.
E quem conduz narrativa sem dados, sem contexto, sem causalidade, sem honestidade intelectual — não forma opinião.
FORMA TORCIDA.
Jocelaine Santos não é jornalista nesse texto. É líder de torcida organizada.