FOTO DE ARQUIVO - Hidrelétrica de Itaipu. Foto: Eletrobrás Furnas/Divulgação

Ditadura Militar potencializou ensino privado com contrato histórico em Itaipu

Hidrelétrica de Itaipu, fundamental para o contexto da escola do Anglo-Americano. © Eletrobrás Furnas/Divulgação

No auge da ditadura militar brasileira, uma escola pública recém-construída em Foz do Iguaçu, Paraná, foi repassada à iniciativa privada pouco antes de sua inauguração. A Escola Politécnica, planejada originalmente para atender à demanda escolar do município, foi entregue ao Colégio Anglo-Americano, contratado pela Itaipu Binacional para educar os filhos dos seus funcionários.

O prédio, financiado com recursos públicos, surgiu com a finalidade de reduzir o déficit escolar na cidade causado pelo rápido crescimento populacional, que quadruplicou em uma década devido às obras da hidrelétrica. Naquele período, cerca de 3 mil crianças estavam fora da escola na região.

José Kuiava, que era inspetor de ensino municipal na época, recorda ter recebido ordem direta, via telefone da Secretaria de Educação do Estado, para entregar as chaves do prédio ao proprietário do Anglo-Americano, Ney Suassuna, gerando constrangimento por contrariar os anúncios prévios sobre o uso público da unidade.

O contrato firmado entre Itaipu, o consórcio que construía a usina (Unicon) e o Colégio Anglo-Americano garantia um mínimo de mil vagas custeadas integralmente pela hidrelétrica. Entretanto, o colégio chegou a registrar mais de 10 mil matriculados já no primeiro ano, chegando ao ápice de quase 14 mil alunos durante as obras da usina.

Segundo estudos acadêmicos, o acordo foi altamente favorável à iniciativa privada, com Itaipu e o consórcio fornecendo toda a infraestrutura e materiais para o colégio, que passou a lucrar amplamente com o contrato, considerado uma verdadeira “galinha dos ovos de ouro”.

O Colégio Anglo-Americano se expandiu de forma extraordinária após o contrato, crescendo 2.800% e trocando seu foco de uma instituição localizada exclusivamente na zona sul do Rio de Janeiro para uma rede presente em várias regiões do país, incluindo outras estatais como Tucuruí e contratos internacionais.

A ligação política do proprietário, Ney Suassuna, que já atuara no Ministério do Planejamento durante o regime militar, facilitou a celebração do contrato sem processo público licitatório identificado, conforme pesquisado por especialistas e documentalmente não comprovado.

O modelo educacional e estrutural do colégio reproduzia desigualdades sociais explícitas, com unidades distintas para filhos de funcionários com diferentes posições na empresa. A unidade destinada a funcionários com salários maiores contava com melhores instalações, enquanto a outra apresentava recursos limitados e projetos pedagógicos diferentes, refletindo um tratamento desigual dentro do próprio sistema educacional fundado pela hidrelétrica.

Ao mesmo tempo em que investia na educação para seus empregados via escola privada, o investimento em escolas públicas locais se mostrou insuficiente para atender ao crescimento populacional e para compensar a perda de escolas devido às desapropriações feitas para a construção da usina.

Atualmente, a Itaipu Binacional justifica o investimento na escola privada como uma resposta necessária à demanda por infraestrutura educacional de qualidade durante o período de expansão. A empresa ressalta ainda contribuições educacionais posteriores, como apoio para a criação da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila) em 2010.

O Colégio Anglo-Americano de Foz do Iguaçu mudou de gestão após o fim do contrato direto com Ney Suassuna, que afirmou na época não haver condições públicas para estruturar a rede de ensino local diante do contexto e urgência da época.

Texto original e independente produzido a partir de apuração factual publicada pela Agência Brasil. Imagem: © Eletrobrás Furnas/Divulgação.

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