Por Francisco Tramujas
O discurso sempre foi bonitinho: Estado inchado, ineficiência, déficit público. A receita veio dos Estados Unidos, embalada em power point e boa intenção — o tal Consenso de Washington, 1989. Países pobres e endividados deveriam cortar gastos, abrir o mercado, vender o que fosse público e confiar no capital privado. O resto, o mercado resolve.
Só que o mercado resolveu do jeito dele: comprando estatais estratégicas com dinheiro emprestado… pelo próprio BNDES. E ainda ganhando isenção de imposto de renda.
O “Estado mínimo” que virou “Estado caixa eletrônico do capital”
No papel, o Consenso de Washington pregava o minimal state — Estado pequeno, fora da economia. Na prática, o Estado nunca saiu. Ele só trocou de função: deixou de prestar serviço público para bancar a privatização.
O roteiro é velho, mas sempre renovado:
- Governo diz que não tem dinheiro para investir em saneamento, energia, saúde.
- Vende estatal a fundo privado (muitas vezes estrangeiro).
- Oferece financiamento público para o comprador pagar a compra.
- Dá incentivos fiscais — a estatal privatizada não paga Imposto de Renda.
- Anos depois, o novo dono não investe, o serviço piora, a tarifa sobe.
- E o Estado volta para socorrer o investidor com mais dinheiro público.
Pronto. O que era para ser Estado mínimo virou Estado de-risking: o Estado socializa o prejuízo e privatiza o lucro.
Exemplos de sobra — e de dar vergonha (Brasil)
Light (RJ): Privatizou, quebrou, pediu socorro
A Light – Companhia de Energia Elétrica -, no Rio de Janeiro, é um caso exemplar do modelo de “privatização com financiamento público seguido de recuperação judicial”. Privatizada nos anos 1990, a distribuidora de energia passou anos sem investimento adequado, acumulou dívidas, e em 2023 pediu recuperação judicial — algo impensável para um serviço essencial.
O que aconteceu? O novo controlador privado priorizou o lucro e o pagamento de acionistas. A manutenção da rede ficou em segundo plano. Apagões se tornaram rotina. E quando a empresa quebrou? O governo federal foi acionado para socorrer — com dinheiro público, claro. A população, que já pagava tarifas altíssimas, ainda paga o pato duas vezes.
Copel (PR): A venda que veio com “bônus” e isenção fiscal
A Copel foi privatizada pelo governo Ratinho Junior em 2023, numa operação que virou piada pronta para economistas sérios. O Estado vendeu sua participação majoritária, mas — adivinhem — deu isenção de imposto de renda para a empresa privatizada. Além disso, distribuiu “bônus” para acionistas com dinheiro da própria empresa.
Resultado: o consumidor paranaense continuou pagando a mesma tarifa (ou maior), o controle acionário migrou para fundos de investimento (inclusive estrangeiros), e o Estado perdeu a capacidade de investir no setor. O lucro foi privatizado. O prejuízo, socializado.
Sabesp (SP): Dinheiro público para proteger investidor
A privatização da Sabesp, concluída em 2024, foi um primor de engenharia financeira reversa. Criou-se um fundo com dinheiro público — sim, do próprio governo de São Paulo — para proteger investidores privados de prejuízo com as tarifas. Em outras palavras: o Estado garante que o privado não perca dinheiro, mesmo que o serviço seja mal prestado. Se der lucro, o acionista embolsa. Se der prejuízo, que paga é o contribuinte.
Iguá Saneamento: BNDES comprando ações, e esgoto na praia
A Iguá Saneamento é o exemplo mais cínico de todos. O BNDES — banco público que deveria desenvolver o país — comprou ações da empresa a partir de 2011. A Iguá opera concessões de saneamento em seis estados. Em 2025, a agência reguladora do Rio processou a empresa após despejo de esgoto sem tratamento na Barra da Tijuca e a secagem de um lago.
Ou seja: o dinheiro do BNDES ajudou a financiar uma empresa que poluiu a orla carioca. E a conta? O consumidor pagou tarifa, o BNDES perdeu dinheiro (ou não), e o acionista embolsou dividendos.
O dado que assusta (e que a mídia não mostra)
Os 20 maiores fundos de investimento do mundo controlam 47% de toda a infraestrutura do planeta.
Isso não é mercado livre. Isso é monopólio global de ativos estratégicos — água, energia, rodovia, porto, saneamento. E o Consenso de Washington foi a chave que abriu a porta dos países pobres para esse saque.
O modelo não é só brasileiro: o mesmo fracasso nos Estados Unidos e na Europa
Agora, atenção: os defensores da privatização adoram dizer que o modelo deu certo nos Estados Unidos e na Europa. Mentira!!! O que deu certo foi a regulação forte e, em muitos casos, a manutenção da propriedade pública. Quando tentaram o modelo brasileiro — privatização pura e simples com Estado ausente — o resultado foi o mesmo caos: estrutura piorada e custos mais caros para o consumidor.
Estados Unidos: onde o discurso não se aplica à prática
O economista Gregory Palast revela um segredo que os consultores americanos não contam quando vão vender privatização para o mundo: nos EUA, 78% da população é atendida por sistemas públicos de água. O governo norte-americano controla cerca de 2.000 dos 3.000 sistemas elétricos do país. E a regulação sobre os privados é draconiana — o lucro típico de uma utility americana é limitado a 3% ao ano, contra 30% que as privatizadas britânicas embolsaram.
Quando os Estados Unidos tentaram desregulamentar, deu no que deu. A Califórnia, em 2000-2001, viu o preço da energia elétrica disparar, as distribuidoras privadas quebrarem, e o governo ter que intervir com bilhões de dólares públicos para evitar o colapso. Exatamente o mesmo roteiro: privatização, crise, resgate público.
Reino Unido: o laboratório do fracasso
Os britânicos privatizaram a água sob Margaret Thatcher. Resultado? O preço da água subiu 88% em sete anos. Hoje, um terço da água tratada vaza pelos canos envelhecidos porque as empresas privadas cortaram 7 mil empregos na manutenção. Os consumidores ingleses pagam 59pence (59 centavos de libra esterlina) por metro cúbico de água; nos Estados Unidos, onde o sistema é majoritariamente público, pagam 22pence — menos da metade.
E não é só água: a eletricidade britânica é 50% mais cara que a americana. O lucro foi privatizado; a qualidade do serviço, não.
França: os monopólios privados que ninguém fiscaliza
A França é o país das gigantes privadas de água — Veolia, Suez — que hoje dominam o mercado global. Mas poucos contam que o modelo francês é de concessão com regulação fortíssima, e que em muitos casos as cidades estão retomando o controle público após décadas de preços abusivos e falta de transparência. Em 2025, a discussão na Europa não é “privatizar mais”, mas sim “como reestatizar o que foi vendido”.
O fracasso das empresas norte-americanas na Europa
Num estudo publicado na ScienceDirect, pesquisadores mostram que dezenas de empresas americanas de energia invadiram a Europa nos anos 1990, comprando ativos públicos recém-privatizados. Resultado: uma década depois, estavam saindo aos trancos, com destruição massiva de valor e falências. O motivo? Subestimaram o risco político e a complexidade regulatória. Acharam que “privatização” era sinônimo de “fazer o que quiser”. Não era.
Enquanto isso, na Coreia do Sul e na China…
Eles fazem o oposto:
- Estado forte, com estatais eficientes.
- Parceria com o setor privado, sim — mas com prazos curtos, regras duras e punição severa para quem descumpre.
- Infraestrutura desenvolvida sem se curvar ao capital estrangeiro.
O resultado? Eles têm saneamento, trem-bala, energia estável. Nós temos esgoto a céu aberto e ação judicial contra empresa que poluiu de graça.
A França, mesmo com empresas privadas fortes, manteve a EDF (eletricidade) como estatal até 2004 — e ainda hoje o Estado tem controle indireto. O resultado: a França tem 80% de energia nuclear, a eletricidade mais estável e uma das mais baratas da Europa. Como disse o ex-presidente da EDF: “Se não fosse assim, não teríamos 80% de energia nuclear nem o padrão europeu de eletricidade”.
A conclusão que o mercado não quer que você leia
O modelo de privatização vendido pelo Consenso de Washington — e agora recauchutado como Consenso de Wall Street — não é um modelo de eficiência. É um modelo de transferência de ativos públicos para fundos de investimento estrangeiros, com financiamento do próprio Estado e risco socializado.
A Light quebrou. A Sabesp deu isenção fiscal. A Iguá poluiu. A Copel foi vendida com bônus. No Reino Unido, a água custa o dobro e vaza pelos buracos. Nos Estados Unidos, quando tentaram desregulamentar, o governo teve que socorrer.
Enquanto isso, a Coreia do Sul, a China e até a França (parcialmente) mantêm o controle estatal sobre o essencial — e suas populações pagam menos por serviços melhores.
Cabe a nós, cidadãos brasileiros, decidir: queremos continuar pagando a conta do banquete dos fundos estrangeiros? Ou vamos aprender com os exemplos que realmente deram certo — e manter o público onde ele pertence?
O Consenso de Washington não acabou. Ele só mudou de nome. Chama-se agora Consenso de Wall Street. E a única coisa que ele consente é a nossa subordinação.