O Número 24

Foto de Geison Vendramin

Geison Vendramin

Já figurou nesta coluna uma breve história sobre um acontecimento no meu saudoso 2º grau — ensino médio, para os Enzos e Valentinas.

Na época, eu havia mudado de colégio.

E, por uma combinação quase perfeita entre falta de habilidade social e conveniência, não fiz nenhum amigo naquele primeiro ano.

Mas também não fiquei no prejuízo. Consegui algo mais… estrutural.

Ergui muros.

E não eram muros quaisquer. Eram daqueles que fariam os pedreiros da Muralha da China olhar e pensar:

“rapaz… esse menino tem potencial.”

E como toda grande construção… aquilo teve um alicerce. O meu começou no primeiro dia de aula. Na lista de chamada. Pode parecer pouco.

Mas quem já passou pelo ensino médio sabe: ali, qualquer detalhe vira identidade.

Pra você entender, preciso recorrer a um clássico do folclore da quinta série: no jogo do bicho, o número 24 representa o veado. E “veado”, como você já deve imaginar, virou um rótulo que a adolescência distribui com a sutileza de um tijolo na testa.

E adivinha qual era o meu número…  Antes disso… deixa eu te mostrar como isso aconteceu.

Começou a chamada. Sem pressa. Sem piedade.

— Alex?

— Presente!

— Seu número é o 1.

Normal. Seguro. Quase acolhedor. E assim foi indo. Nome após nome. Número após número.

Numa sala com quase 40 alunos, eu fazia um cálculo mental digno de vestibulando:

“G… sétima letra do alfabeto… devo cair ali pelo 15… talvez 16… no máximo 18.”

Zona neutra.

Território seguro.

Anonimato garantido.

A chamada avançava…

e, com ela, uma sensação estranha começava a surgir.

16, 17, 18…

Até ali, tudo sob controle. Mas aí… veio o 20. E algo dentro de mim travou. O cérebro já não fazia mais conta. Fazia prece.

O silêncio da sala parecia mais pesado. Ou talvez fosse só dentro da minha cabeça.

21

22

23…

E ali naquele exato momento…eu tive certeza:

“Deu ruim.”

— Geison?

Um segundo. Só um segundo. Mas pareceu uma eternidade.

— Presente.

O professor, impassível, olha a lista. Sem emoção. Sem contexto. Sem saber que estava prestes a definir o resto do meu ano letivo.

— Seu número é o 24.

A sala não reagiu.

Ela colapsou.

E, como manda a tradição universal das salas de aula… lá do fundão — porque sempre é de lá — veio a sentença:

— É o Bambi!

Pronto. Sem cerimônia. Sem direito a defesa. Sem segunda instância. Estava oficialmente batizado. E sempre que a chamada acontecia, algum filho de uma boa mãe reforçava:

— O Bambi tá aí?

E eu? Curiosamemre não havia intimidade. Não havia liberdade. Não havia relação. Mas havia plateia. E, com plateia, sempre aparece um comediante

Eu engolia. Seguia.

Nos anos 90, bullying não era tratado como problema. Era visto quase como método pedagógico alternativo. Uma espécie de “forja de caráter” não regulamentada.

Só que certas coisas não passam.

Elas acumulam. E um dia… transbordam.

Aconteceu numa aula qualquer. Durante a chamada, o sujeito atrás de mim resolveu repetir o ritual:

— Responde aí, Bambi…

Dessa vez, não teve filtro. Foi reflexo. Raiva acumulada em estado bruto. Dei uma cotovelada na carteira dele.

A mesa avançou no peito do sujeito com uma convicção que eu, honestamente, não sabia que tinha.

Levantei. Fiquei de frente pra ele. E, mesmo sendo alguém que sempre evitou conflito… eu me impus. Olhei bem e disse:

— Experimenta me chamar de Bambi de novo.

O rapaz ficou branco. Depois vermelho. Depois uma mistura de tudo. E, ali, pela primeira vez, o silêncio venceu a piada. A atenção da sala convergiu pro canto onde eu sentava.

O professor interveio. Mandou sentar. E a aula seguiu. Mas, dentro de mim, o cenário era outro. Passei o resto do tempo pensando:

“Pronto. Agora vou ter que brigar.”

E pior:

“Vou apanhar.”

Porque o sujeito era maior. E a coragem que aparece no impulso… costuma desaparecer na antecipação. Mas, naquele momento, já não importava.

Se fosse pra apanhar… que pelo menos servisse pra encerrar a história.

Fim da aula. Eu já me preparando mentalmente pro pior. Quando ele se aproxima e diz:

— Geison… me desculpa, cara. Entrei na onda. Não quero encrenca com você.

Ali, aconteceu algo curioso. Ele achou que eu era perigoso. E eu sabia que estava apavorado.

Mas, ainda assim… funcionou.

A partir daquele dia, ninguém mais me chamou de Bambi. Parte por intervenção da escola. Parte por bom senso tardio.

Mas, principalmente… pela impressão que ficou. Não me orgulho da forma. Mas reconheço o efeito.

E foi ali que aprendi uma coisa que, até hoje, me incomoda admitir:

nem tudo se resolve na diplomacia.

Às vezes, o discurso não chega. A lógica não convence. A razão não atravessa.

E, nesses casos… uma cotovelada bem dada numa mesapode abrir um diálogo que palavras nunca abririam.

A ironia?

A paz não veio pela força. Mas pelo medo de que eu tivesse força.

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