Não é crise, é rearranjo: o brasileiro está trocando a cerveja pela água, o hambúrguer pelo ovo e a janta pela caneta

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Tramujas Jr.

Por Francisco Tramujas

 

O brasileiro cortou cerveja em quase 7%. E aumentou o consumo de água em quase 60%. Não é crise, meu irmão. É troca.

 

Saíram três pesquisas no mesmo mês e quase ninguém ligou os pontos.

 

A Scanntech, publicada pela Folha de São Paulo, mostra que entre 2022 e 2025 o brasileiro cortou massa instantânea em 16,6%, açúcar em 14,2%, hambúrguer em 11,2%, biscoito em 10,1%, margarina em 10,2% e cerveja em 6,8%.

 

No mesmo período, aumentou água em 59,6%, frutas in natura em 33,9%, ovo em 24,3%, sardinha enlatada em 19,6%, queijo em 17,3% e frango in natura em 15,4%.

 

Não é uma economia em queda. É um país em rearranjo.

 

 

A cesta saúde disparou

A cesta saúde cresceu mais de 17% só no início de 2025, segundo a Scanntech. Suplemento e iogurte funcional estão crescendo até 110 vezes mais rápido que o resto do supermercado.

 

Bebida proteica triplicou de penetração em dois anos: foi de 5% em 2023 pra 13% em 2025. E metade dos brasileiros declara que vai aumentar o consumo de proteína em 2026, segundo levantamentos do setor.

 

E aqui tá a parte que tira o sono de qualquer dono de restaurante. Mesmo com o preço da carne bovina caindo quase 9% no início de 2025, o consumo caiu quase 8% em volume.

 

 

Preço baixou e ninguém comprou.

Em contrapartida, o ovo subiu 11,7% de preço e o consumo ainda assim cresceu 5,5%. Quando o brasileiro paga mais por uma coisa que ficou mais cara, e recusa outra que ficou mais barata, isso não é economia. É escolha.

 

E escolha não muda com promoção. Muda com produto novo.

 

 

A revolução silenciosa: as canetas que mudaram o jogo

Agora, segura essa: tem um negócio acontecendo nas farmácias que ajuda a explicar tudo isso.

 

As chamadas canetas emagrecedoras — medicamentos como Ozempic, Wegovy e Mounjaro — movimentaram R$ 10 bilhões em 2025 no Brasil, o equivalente a 4% de todo o mercado farmacêutico do país. E a projeção é que esse mercado salte para R$ 20 bilhões em 2026 com a queda da patente da semaglutida.

 

Só em janeiro de 2026, as farmácias brasileiras venderam 443 mil caixas desses medicamentos. O Mounjaro sozinho respondeu por 52,8% das vendas. Mulheres de 40 a 49 anos são as que mais compram, mas o perfil está se expandindo rapidamente.

 

O que isso tem a ver com a comida? Tudo.

 

Esses medicamentos reduzem o apetite em 20% a 30% e alteram o sistema de recompensa do cérebro: o desejo por comida gordurosa e açucarada simplesmente diminui. Usuários deixam de sentir vontade de comer ultraprocessados, doces, frituras. O que sobra? Proteína, fibra, comida de verdade.

 

E os números já mostram esse movimento, mesmo com o mercado de canetas ainda engatinhando no Brasil (menos de 1% da população usa, contra 12,4% nos Estados Unidos).

 

A creatina cresceu 89% em volume. O whey protein disparou 124%. E a Scanntech detectou um aumento de 117,1% nas vendas de produtos com whey e 84,1% nos de creatina em 2025.

 

O brasileiro não está só trocando o que come. Está trocando por que come.

 

 

O arroz com feijão está perdendo o trono

O tradicional arroz com feijão, símbolo da culinária brasileira, está perdendo espaço no prato do consumidor — mesmo com os preços caindo. Dados da Scanntech mostram que no primeiro semestre de 2025 o consumo de arroz caiu 4,7% e o de feijão 4,2%, mesmo com redução expressiva nos preços: -14,2% para o arroz e -17,5% para o feijão.

 

E olha que isso não é de agora. A Embrapa confirma: o consumo per capita de arroz caiu de 40 kg em 1985 para apenas 28,2 kg em 2023. O feijão foi de 19 kg para 12,8 kg no mesmo período.

 

Priscila Ariani, diretora de marketing da Scanntech, explica o fenômeno: “A população vive uma rotina corrida, onde praticidade e conveniência ditam as escolhas. Preparar arroz e feijão em uma casa com apenas duas pessoas se torna uma tarefa mais trabalhosa”.

 

Enquanto isso, as vendas de pratos prontos cresceram 6,5% no varejo alimentar. Legumes e verduras tiveram alta de 10,9% no consumo, mesmo com a cesta de açougue e peixaria encarecendo 18,4%.

 

 

A cerveja já era? Tem outra história…

Pera lá. Não vamos enterrar a cerveja tão rápido.

 

Sim, o consumo de cerveja caiu 6,8% no período analisado pela Scanntech. E no foodservice a queda foi ainda mais brutal: 14% em valor e 15% em volume nas transações envolvendo cerveja entre abril de 2024 e março de 2025.

 

Mas tem um porém gigante: o mercado de cerveja sem álcool explodiu.

 

O Brasil passou de 140 milhões de litros vendidos em 2019 para 702 milhões de litros em 2024 — um crescimento de 5,6 vezes. Em 2025, a projeção foi de 786 milhões de litros. O país só perde para a Alemanha nesse mercado.

 

Enquanto a cerveja tradicional cresce a míseros 1% ao ano, a categoria sem álcool avança a 13%. A Heineken 0.0 lidera o mercado, e a Ambev viu suas vendas de cerveja sem álcool crescerem 20% no terceiro trimestre de 2025.

 

O que explica isso? A geração Z. Cerca de 45% dos nascidos entre 1997 e 2012 consomem bebida alcoólica — número até 20 pontos percentuais abaixo das gerações anteriores.

 

Não é que o brasileiro parou de beber cerveja. Ele quer cerveja, mas sem o porre.

 

E não é só cerveja. As cervejas de baixa caloria cresceram 40% e os refrigerantes zero consolidam o desejo de socializar com controle sobre calorias.

 

 

O preço da carne subiu, e o boi ficou no pasto

Enquanto isso, no açougue, a novela é outra.

 

As proteínas animais pressionaram os preços dos alimentos em 2025. A carne bovina acumulou alta de 2,3% só em dezembro, enquanto os queijos tiveram valorização de 12,4% no ano.

 

O café? Esquece. Liderou as altas com 40,7% de aumento entre dezembro de 2024 e dezembro de 2025 — o preço médio passou de R$ 53,58 para R$ 76,36.

 

E a margarina? Subiu 12,1%. A cerveja (com álcool) subiu 6,2%.

 

Mas o dado mais louco de todos: o consumo interno de carne bovina caiu mesmo com o Brasil se tornando o maior produtor mundial da proteína em 2025, com 12,4 milhões de toneladas equivalentes carcaça — alta de 4,6% sobre 2024.

 

Quase 60% da produção ficou no mercado interno, mas o consumo por pessoa segue em queda. Enquanto isso, o Brasil exportou volumes recordes: até novembro de 2025, os embarques de carne bovina in natura somavam 3,8 milhões de toneladas.

 

 

O que vem por aí: a popularização das canetas

A queda da patente da semaglutida em março de 2026 é um marco. Dezessete laboratórios correram para registrar versões genéricas. A EMS investiu R$ 1,2 bilhão em uma fábrica com capacidade para 20 milhões de canetas por ano.

 

O preço do tratamento, que hoje gira entre R$ 900 e R$ 1.300 por mês, pode cair de 30% a 50% com os genéricos. A projeção é que o mercado de GLP-1 no Brasil ultrapasse R$ 50 bilhões até 2030, com cerca de 15 milhões de usuários.

 

O Itaú BBA estima que as canetas emagrecedoras podem representar 20% da receita das grandes redes de farmácia até o final da década. Hoje, já são de 8% a 9%.

 

E os impactos no consumo alimentar? Ainda são pequenos no Brasil, porque a penetração é baixa. Mas nos Estados Unidos, onde 12,4% dos adultos usam esses medicamentos, os estudos mostram quedas de 10,1% no consumo de salgadinhos, 8,8% em doces de padaria e 6,5% em biscoitos.

 

A diretora da Scanntech, Priscila Ariani, resume: “Diante disso, o que já se observa é um movimento na categoria de saudabilidade, com incentivo ao crescimento do consumo de proteína e queda de produtos mais calóricos. Tanto a indústria quanto o varejo estão se adaptando a essa mudança massiva”.

 

 

O efeito colateral inesperado: o esporte e a moda

Tem mais. A transformação corporal acelerada pelas canetas está gerando um efeito dominó que pouca gente previu: pessoas que emagrecem rápido correm para a academia para não perder massa magra e evitar flacidez.

 

O setor esportivo brasileiro movimentou cerca de R$ 30 bilhões em 2025. O país mantém mais de 30 mil academias em operação, com faturamento anual próximo de R$ 12 bilhões e cerca de 10 milhões de clientes ativos.

 

A Speedo, marca de roupas esportivas, viu suas vendas crescerem 18% e detectou que uma parcela significativa dos clientes passou a adquirir numerações menores — muitos migraram do GG para o M, saltando dois números. O fenômeno está associado ao uso crescente das canetas.

 

O CEO da Speedo, Roberto Jalonetsky, foi direto: “Estamos recebendo no esporte pessoas que transformaram o corpo em poucos meses e agora precisam consolidar essa mudança por meio da atividade física”.

 

 

O que tudo isso significa?

O brasileiro não está mais pobre. Está diferente.

 

A taxa de desocupação fechou 2025 em torno de 6% — o menor patamar desde 2012. A renda média mensal chegou a R$ 3,6 mil até agosto.

 

Mas a inadimplência subiu. A confiança do consumidor caiu. E o volume de vendas no varejo alimentar está retraído por cinco trimestres consecutivos.

 

Contradição? Não. Transição.

 

O brasileiro está trocando industrializado por natural. Está trocando álcool por saúde. Está trocando tradição por praticidade. E agora, com as canetas emagrecedoras ganhando escala, está trocando quantidade por qualidade — comendo menos, mas comendo melhor.

 

Um estudo com 150 mil usuários nos Estados Unidos já mostrou: queda de 10,1% em salgadinhos, 8,8% em doces, 6,5% em biscoitos. O mesmo está começando a acontecer aqui.

 

E quem não entender isso vai continuar baixando preço de carne e se perguntando por que ninguém compra.

 

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