Agora acredita?

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Geison Vendramin

Até meus 29 anos, nunca acreditei nessa história de olho gordo.

Isso apesar de, ironicamente, dirigir na época, um Megane vermelho – cor tradicionalmente associada a todo tipo de proteção mística contra inveja, azar e outras forças ocultas do universo.

Mas isso, claro, eu só descobriria depois.

Sempre achei que fosse apenas uma alegoria folclórica – superstição sem fundamento, história da carochinha ou qualquer outro adjetivo pejorativo que você queira usar para classificar uma boa e velha balela.

Isso foi até a Gihane entrar na minha vida.

Eu era tão avesso a esse tipo de coisa que o máximo que conhecia como “proteção espiritual” era a famigerada fitinha vermelha. Amarrada em tudo: no carro, na roupa, nas chaves, no pulso… e em qualquer outro lugar onde um nó fosse possível.

Quando começamos a nos conhecer, fui até a loja que ela tinha na época. Lá vi um vaso de pimenteira produzindo lindamente e pensei comigo mesmo:

“Escolha curiosa para planta ornamental, mas tudo bem.”

Eu não fazia a menor ideia de que, naquele contexto, a pimenteira funcionava como um pequeno talismã contra um sentimento nada nobre: o tal do olho gordo.

Algum tempo depois fomos buscar minha futura sogra na casa de alguém que hoje já não lembro quem era. Quando chegamos perto, Gihane pediu que eu deixasse o carro estacionado a uma quadra de distância.

Perguntei o motivo.

– Depois eu te conto. – me deu um beijo e saiu.

Naquele momento achei que talvez ela estivesse com vergonha de aparecer comigo. Cheguei a cogitar que pudesse levar alguma bronca da família por não estar namorando um rapaz árabe. Na dúvida, fiquei quieto.

Fiquei esperando no carro.

Minutos depois voltou acompanhada da mãe e mais alguém. Achei educado descer para cumprimentar.

Depois das apresentações formais, a mulher olhou para mim, olhou para o carro e soltou:

– O moço é tão bonito quanto o carro, hein… parabéns, Gihane!

Despediu-se, virou as costas e foi embora.

Entrei no carro.

Minha sogra, no banco de trás, começou imediatamente a cochichar e gesticular, como se estivesse falando consigo mesma. Eu, completamente alheio ao contexto, perguntei pra Gihane o que estava acontecendo.

– Porque a sua mãe está cochichando?

– Ela está rezando, Ge. A mulher que vc cumprimentou tem muito olho gordo.

Fiquei sabendo que era esse então o motivo pelo qual fiquei esperando no carro. O medo de interferências sobrenaturais no inicio do relacionamento, acabou falando mais alto… mas, como era completamente cético, dei zero importância à informação e girei a chave.

Silêncio.

Nenhum ruído. Nenhuma tentativa. Nenhum sinal de vida.

O carro simplesmente… morreu.

Como se, naquele exato instante, toda a eletrônica do veículo tivesse decidido pedir as contas e abandonar a função.

Olhei para o painel.

Tudo apagado.

Tentei novamente.

Nada.

Foi então que lembrei de um procedimento que já tinha feito uma vez, muito tempo antes, quando o carro ficou parado por vários dias: um pequeno “reset” na central eletrônica.

Abri o capô, fiz o procedimento e voltei para dentro do carro.

Preparei-me para tentar novamente.

Foi quando Gihane pediu:

– Espera um pouco… deixa minha mãe terminar de rezar.

Olhei pelo retrovisor. Minha sogra continuava concentrada, murmurando algo em árabe que, naquele momento, eu torcia sinceramente que fosse tecnicamente eficaz.

Esperei.

A oração terminou.

Girei a chave.

O motor pegou imediatamente. Redondo. Como se nada tivesse acontecido.

Gihane virou lentamente para mim, com aquele sorriso de quem já sabia exatamente o que eu estava pensando.

– Agora acredita?

Confesso que aquele episódio isolado ainda não foi suficiente para me converter.

Mas não demorou muito.

Um pirex quebrando na minha mão logo depois de alguém elogiar a beleza da peça. Meu computador na firma dando tela azul segundos após ser admirado pela potência do processamento. Pequenos episódios aparentemente banais… que começaram a se repetir com uma frequência curiosa.

Hoje não digo que virei um crente fervoroso em mau-olhado.

Mas também não sou mais o cético convicto de antes.

Digamos que encontrei uma posição intermediária bastante confortável:

continuo não acreditando…
mas, por via das dúvidas, também não duvido.

Inclusive, analisando o episódio com mais calma, percebo que talvez eu já estivesse parcialmente protegido naquele dia.

O carro, afinal de contas, era vermelho.

E, aparentemente, até meu ceticismo vinha de fábrica com algum tipo de superstição instalada.

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