Nunca dentro

Foto de Geison Vendramin

Geison Vendramin

Domingo. Shopping. Praça de alimentação.

Enquanto almoçava com minha família, eu fazia o que sempre faço nesses momentos: observava. Jovens por todos os lados. Muitos. Fantasias, perucas de cores vibrantes, capas, espadas de plástico. Alguns personagens eu reconhecia. Outros pareciam saídos de um idioma que eu não aprendi.

Descobri que havia uma feira geek acontecendo. No meu tempo, a palavra era nerd. Mas nem esse grupo escapou do processo de gourmetização. Videogames antigos, quadrinhos, action figures — “bonequinhos”, na minha tradução simultânea — cards de K-pop que me lembraram o Super Trunfo da minha adolescência. Super trunfo eu entendia, mas isso… Tentando até agora entender como é que se joga com aquilo. Talvez acho que precise pedir ajuda pra minha filha, já que ela entende dessas coisas.

E ali, no meio daquele entusiasmo coletivo, senti algo que não tinha nada a ver com cosplay.

Senti deslocamento.

Não por não entender as referências. Isso é o de menos. O que me incomodou foi perceber que aquelas tribos têm uma coisa que eu nunca tive: pertencimento.

Na adolescência, eu também circulava entre grupos. Mas era sempre isso: circular. Não tinha habilidade para os esportistas e skatistas. Não era inteligente o suficiente para os nerds. Não era ousado o bastante para os descolados. Não era rebelde para os alternativos e bagunceiros.

Eu estava sempre perto.

Nunca dentro.

Hoje vejo meu filho – corte de cabelo padronizado, linguagem própria, códigos que eu não acompanho – e percebo o quanto essa fase é sobre encaixe. É sobre encontrar um espelho coletivo onde se reconheça.

Eu não encontrei esse espelho.

Talvez por isso, andando naquele shopping, cercado de jovens vibrando em seus personagens, trocando ideias com brilho nos olhos, me senti velho.

Mas não velho de idade. Velho de referência.

A constatação foi desconfortável. Preciso deixar claro: não é que o mundo deles seja estranho. Muito pelo contrário! Parece fascinante. O entusiasmo e paixão que eles demonstram, faz isso transparecer. A verdade é que eu não sei mais – ou talvez nunca soube – onde me encaixo.

Como se o desconforto que sentia não fosse suficiente, veio a segunda camada do incômodo.

Talvez o problema não seja envelhecer.

Talvez seja perceber que, mesmo jovem, eu já me sentia um pouco fora de lugar.

No fim, fui procurar minha família.

Encontrei minha esposa. Encontrei meus filhos. Entramos no carro. Ao meu lado, uma mulher de infinita beleza interna e externa. No retrovisor, duas vozes discutindo algo que eu provavelmente também não entenderia completamente.

E ali, por alguns segundos, pensei:

Se nunca pertenci a uma turma, pelo menos pertenço a esse instante.

Crescer talvez seja aceitar isso: que o mundo muda, as tribos se reorganizam, os códigos se atualizam e você continua sendo aquele que observa.

Não dentro. Mas também não totalmente fora.

Só… entre.

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