Por Francisco Tramujas
Ao me deparar com a coluna de José Fucs no UOL, a sensação não foi de discordância — foi de constrangimento intelectual.
Não pela divergência de visão, que é saudável em qualquer debate sério, mas pela superficialidade com que um tema complexo como economia foi tratado. O que deveria ser uma análise técnica minimamente consistente acabou reduzido a um exercício retórico: números pinçados, contexto ignorado e conclusões previamente decididas.
O mais grave não é o posicionamento — é o método. Trata-se de um texto que abandona a economia para se tornar política disfarçada de análise, onde os dados deixam de explicar a realidade e passam a ser moldados para confirmá-la.
É a clássica inversão: não se interpreta os números — interpreta-se a narrativa, e depois se escolhem os números que a sustentam.
E é justamente por isso que essa coluna precisa ser enfrentada. Não no campo da opinião rasa, mas no terreno onde ela falha: consistência, contexto e evidência.
Porque quando a análise econômica se torna instrumento de viés, o debate público perde — e o leitor, inevitavelmente, é induzido ao erro.
E é ponto a ponto que essa narrativa precisa ser desmontada.

O recente artigo de José Fucs, ao classificar a política econômica conduzida por Fernando Haddad como uma “herança perversa”, não surpreende — mas preocupa. Não pelo posicionamento em si, que é legítimo no debate público, mas pela fragilidade conceitual travestida de análise técnica.
O texto segue um roteiro conhecido: seleciona indicadores fiscais isolados, ignora o contexto macroeconômico e conclui, com aparente autoridade, que o problema da economia brasileira é o gasto público. É uma narrativa simples, sedutora — e equivocada.
O erro de partida: tratar o Estado como empresa
Há um equívoco estrutural no raciocínio apresentado: analisar o Estado como se fosse uma empresa cujo objetivo é equilibrar planilhas no curto prazo. Essa lógica ignora a função essencial da política econômica em economias complexas: estabilizar ciclos, induzir crescimento e mitigar desigualdades. Ou o Brasil poderia deixar de subsidiar o agronegócio através do Plano Safra em R$ 500 bi?
Diferentemente de uma empresa, o Estado não maximiza lucro — ele coordena expectativas, sustenta demanda e garante funcionamento sistêmico.
Reduzir isso a “controle de gastos” é, no mínimo, simplificação. Na prática, é ideologia.
Dívida pública: o alarmismo desconectado da realidade
O argumento da “explosão da dívida” é um dos pilares do texto — e também um dos mais frágeis quando confrontado com dados concretos.
Hoje, a relação dívida/PIB do Brasil gira em torno de 75% a 80%. Quando colocamos esse número em perspectiva internacional, o alarmismo perde força:
- Japão: aproximadamente 260% do PIB
- Estados Unidos: cerca de 120% do PIB
- França: em torno de 110% do PIB
Ou seja, o Brasil está longe de uma situação de insolvência estrutural.
Além disso, há fatores que o artigo de Fucs ignora completamente:
- A dívida brasileira é majoritariamente emitida em moeda própria.
- O país possui cerca de US$ 350 bilhões em reservas internacionais.
- Não há risco concreto de default soberano.
O que existe não é uma crise objetiva — é uma narrativa de crise.
O ponto ignorado: o custo dos juros
Se há um fator estrutural pressionando as contas públicas brasileiras, ele não está no gasto — mas no custo do dinheiro.
O Brasil convive há anos com uma das maiores taxas de juros reais do mundo, o que produz efeitos claros:
- Eleva artificialmente o déficit nominal.
- Amplia o custo de rolagem da dívida.
- Transfere renda de forma consistente para o setor financeiro.
Ignorar esse componente — como faz o artigo — não é um detalhe. É omitir a principal variável explicativa do problema fiscal brasileiro.
Criticar gasto público sem discutir juros é analisar metade da equação.
Déficit não é pecado — é instrumento
Outro equívoco central é tratar o déficit como sinônimo de irresponsabilidade.
Após choques econômicos relevantes, como pandemia e desorganização produtiva, o aumento de gasto público cumpre papel anticíclico fundamental. Trata-se de uma ferramenta para sustentar a demanda, evitar retração mais profunda e preservar a capacidade produtiva.
Mais do que teoria, isso é evidência empírica. O próprio Fundo Monetário Internacional passou, após a crise de 2008, a reconhecer os limites da austeridade fiscal em cenários recessivos.
Déficit, portanto, não é falha automática — pode ser estratégia.
A evidência empírica brasileira: austeridade que gera recessão
O Brasil já aplicou, recentemente, a lógica implícita no artigo.
Entre 2015 e 2016, o país adotou forte ajuste fiscal, com corte de gastos e retração do investimento público. O resultado foi inequívoco:
- Queda acumulada do PIB próxima de 7%.
- Aumento expressivo do desemprego.
- Queda de arrecadação.
O efeito final foi paradoxal: piora fiscal.
Isso desmonta a ideia de que ajuste, por si só, gera confiança e estabilidade.
O silêncio sobre a economia real
Outro ponto crítico é o foco quase exclusivo em indicadores fiscais, em detrimento da economia real.
O Brasil apresenta:
- Taxa de investimento em torno de 17% do PIB (baixa para padrões internacionais).
- Processo contínuo de desindustrialização.
- Crescimento estrutural limitado.
Esses são os verdadeiros entraves ao desenvolvimento econômico — e não são resolvidos com corte de gastos.
Nenhum país equilibra suas contas públicas sem crescer.
O mundo real não segue o roteiro
Enquanto o debate local insiste em fórmulas simplistas, as principais economias do mundo operam de forma distinta.
Os Estados Unidos adotaram pacotes trilionários de estímulo e reforçaram políticas industriais. A China mantém forte coordenação estatal. A Coreia do Sul construiu sua competitividade com planejamento estratégico e intervenção direcionada.
Nenhum desses casos se sustenta na ideia de que austeridade fiscal isolada gera prosperidade.
Mercado: entidade neutra ou agente interessado?
Quando o texto menciona “perda de confiança do mercado”, deixa de fazer a pergunta essencial: confiança de quem? Do André Esteves, dono do BTG Pactual?
Em um ambiente de juros elevados, determinados agentes econômicos se beneficiam diretamente dessa estrutura. Portanto, o discurso de austeridade não é neutro — ele reflete interesses.
Confundir percepção de mercado com realidade econômica é um dos erros mais recorrentes — e mais convenientes — do debate público.
A vergonhosa narrativa de Fucs que não resiste aos dados
O artigo de José Fucs não falha por ter opinião. Falha por ignorar dados, contexto histórico e evidência empírica.
A economia brasileira tem desafios reais. Mas reduzi-los a uma suposta “herança perversa” baseada exclusivamente em gasto público é uma simplificação que não se sustenta.
Quando confrontada com números, história recente e experiência internacional, essa narrativa perde força.
E o que sobra não é análise econômica — é apenas uma opinião bem embalada.
Resta, ao final, uma pergunta inevitável: será que um veículo do porte do UOL, pertencente ao grupo Grupo Folha, simplesmente abriu mão do crivo de um editor de economia e de um editor-chefe para deixar passar um texto tão superficial e errático — ou isso não é falha, é método?
Porque quando um conteúdo dessa natureza é publicado, não se trata apenas de opinião: trata-se de direcionamento. E aí a questão deixa de ser editorial e passa a ser estratégica — formar ou induzir? informar ou conduzir?
Se for descuido, é grave.
Se for intencional, é ainda pior.