Tudo muda… eu não.

Foto de Geison Vendramin

Geison Vendramin

Existem músicas feitas para explodir.
E existem músicas que comprimem.

A última de Till Lindemann não grita. Ela aperta devagar. Ela te espreme para dentro de si mesmo. E, nesse movimento silencioso, obriga você a enxergar certas coisas sob outra luz – distante dos preceitos pré-estabelecidos que carregamos como manual de instruções da própria vida.

“Alles ändert sich… ich nicht.”

Quando soube do título, a primeira coisa que fiz foi traduzir: “Tudo muda… eu não.” Imaginei que dali viria uma pancada carregada de revolta arrogante, imposição, desafio e imoralidade. Algo como: “F@#%-se! Que o mundo mude, eu não mudo!” Till Lindemann sendo Till Lindemann.

Quando a música saiu e apertei o play: surpresa. Afirmo com ainda mais convicção: Till sendo Till. Nada de guitarras estridentes. Nada de bateria frenética. Piano sereno. Sinos discretos. Uma percussão quase invisível, só para lembrar que algo pulsa ali. A entonação e o peso da voz entregam outra coisa. Nada de revolta. Nada de imposição. Nada de desafio. Imoralidade zero. Apenas constatação.

Quase um lamento.

Outro dia meu filho tentou me explicar um meme chamado “Six seven”. Ele mexia as mãos com convicção, repetia a expressão, esperava que eu acompanhasse o raciocínio invisível daquela coreografia aparentemente sem sentido. Fiz o que todo pai faz quando se encontra nessa situação: Fingi que entendi. Balancei a cabeça. Até soltei um “ahhh, tá”. Torcendo pra não cair na prova pois não consegui acompanhar.

Não entendi.

Confesso que fiquei mais confuso do que antes e me conformei em concluir que talvez justamente por não fazer sentido seja engraçado. E ali, enquanto ele ria, percebi: o mundo dele já é outro idioma.

A tecnologia muda. A linguagem muda. As piadas mudam. As referências se reinventam numa velocidade que mal dá tempo de aprender o nome antes de vir a próxima.

Eu continuo sentindo as mesmas coisas que sentia quando descobri minhas músicas aos vinte.

Os filhos crescem. As certezas viram meme. O algoritmo decide o que é relevante.

E a gente aceita, porque não há alternativa.

Entretanto, um núcleo interno permanece. Uma presença quase infantil que se recusa a ir embora. Talvez seja ali que more a melancolia.

Que fique claro: não é tristeza pelo que foi embora. É tristeza por aquilo que ficou – e insiste em permanecer no retrovisor durante toda a viagem.

Essa música não fala de rebeldia. Fala de permanência.

E permanência pode ser abrigo. Ou prisão.

Talvez eu não tenha entendido o “Six seven”.

Mas entendi perfeitamente o que significa começar a ficar para trás.

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