Quando saber já é punição

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Geison Vendramin

Nem só de acontecimentos históricos pessoais vive a minha cabeça (e agora meus textos por aqui). Às vezes, alguns gatilhos são acionados de forma involuntária e aleatória me fazendo pensar em coisas da mais variada sorte. Filosofando a esmo comigo mesmo sobre temas que, na maioria das vezes, não trazem conforto nem conclusão definitiva. Reflexões que pedem apenas espaço, não respostas.

Essas passagens sempre ficaram comigo. Guardadas. Silenciosas.

Até agora.

Há segredos que não escondemos de ninguém em especial. Eles simplesmente existem. Não são confessáveis nem inconfessáveis. Apenas não se oferecem à palavra. Permanecem ali, intactos, mesmo entre aqueles que nos conhecem há décadas, mesmo entre quem dorme ao nosso lado, mesmo diante do espelho.

Vivemos numa época em que tudo pede exposição. Redes sociais. Opiniões, traumas, lembranças, cicatrizes. A autobiografia virou performance. Vivemos na era em que o silêncio levanta suspeitas. Mas, ainda assim, alguns segredos resistem. Não por moral, nem por medo. Resistem porque não sabem como sair.

Há também aqueles segredos mais densos. Os que não apenas se escondem, mas pesam. Segredos que carregam vergonha em estado bruto, daquela que não se dissipa com o tempo nem com explicações. Vergonha que não pede absolvição porque sequer admite plateia.

São segredos que escapam até de nós mesmos. Não cabem numa frase, não se deixam organizar em narrativa. Às vezes precisam emergir para respirar, como sensação difusa: um desconforto sem nome, uma alegria deslocada, uma melancolia sem causa aparente. Algo tão familiar e, ao mesmo tempo, tão estranho, irreconhecível. Topamos com eles no meio do dia, como quem tropeça em algo no escuro, sem conseguir identificar o objeto.

Há ainda o segredo do ato. Não apenas o ensaiado, mas o praticado. Por fraqueza, insanidade temporária, influência de terceiros etc. Aquele que, quando lembrado, torna-se impossível de ser justificado. Esse costuma trazer junto um arrependimento profundo, em sua forma mais lacerante. Não porque alguém descobriu, mas porque nós sabemos. Nesse caso, saber já é punição suficiente.

Esses segredos não moram na memória. Estão enterrados muito mais fundo. Arrisco até classificá-los como habitantes de um continente desconhecido, do qual só percebemos a existência pelos efeitos: um desvio de comportamento, uma escolha inesperada, um silêncio prolongado onde caberia um discurso inteiro.

Eles aparecem na sintaxe. No jeito como falamos. No que evitamos. No que repetimos sem saber por quê. Certas vezes, podem até ser confundidos com lições aprendidas — ou não. Só não são revelados porque não são mentiras. Também não são verdades completas. Algo muito mais complexo e cheio de camadas.

Talvez sejam eles que nos impedem de virar personagens unidimensionais. De nos reduzirmos àquilo que contamos sobre nós mesmos. De nos animalizarmos na lógica rasa da transparência total. Porque o humano é um ser caleidoscópico. Mesmo o mais honesto de nós jamais é janela lisa. É mosaico de fragmentos, unidos ano após ano, de acontecimento em acontecimento.

Há segredos que nunca serão ditos porque não nasceram para serem ditos. Não por covardia. Por estrutura. Eles não pedem revelação. Pedem convivência. E, às vezes, pedem silêncio como forma mínima de respeito a quem fomos… e a quem já não somos mais.

No fundo, não somos donos desses segredos. Somos habitados por eles.
E, gostemos ou não, pertencemos mais a eles do que eles a nós.

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