Folha de S. Paulo: Quando os dados desmentem o jornalismo vira-lata

Foto de Tramujas Jr.

Tramujas Jr.

Por Francisco Tramujas

 

👉 “Brasileiro trabalha menos que a média mundial”, estampou a Folha de S.Paulo.

 

O título soa técnico. Estatístico. Asséptico.

Mas, quando se observa o conjunto completo dos dados — ranking global e comparativo entre países do G20 — a manchete deixa de ser apenas pobre: torna-se editorialmente enviesada.

 

Não é erro.

É escolha.

 

📊 O ranking global que o título esconde

 

No ranking mundial de horas trabalhadas semanais, o Brasil ocupa a 38ª posição, com 40,1 horas por semana.

 

📌 Ranking global — horas médias semanais (seleção)

Posição País Horas
Butão 56,1
Sudão 50,8
Emirados Árabes Unidos 49,4
20º Jamaica 43,4
37º República Dominicana 40,1
38º Brasil 40,1
39º Filipinas 39,9
47º Estados Unidos 38,6
51º Argentina 37,3
57º Japão 35,5
66º Itália 34,1
78º França 31,0

 

📌 Leitura objetiva do ranking

  • O Brasil está entre os 40 países que mais trabalham no mundo.
  • O brasileiro trabalha mais horas que a população dos Estados Unidos, Japão, Itália e França.
  • Mais de 120 países trabalham menos que o Brasil.

 

Esse é o ranking divulgado e repercutido pelo Poder360.

Ele existe.

Mas não virou manchete.

 

📉 Agora o G20: comparação entre pares, não com o Butão

 

Quando a análise é feita de forma minimamente honesta — comparando o Brasil com economias equivalentes — o quadro fica ainda mais constrangedor para a narrativa da Folha.

 

📊 Média semanal de horas trabalhadas — países do G20

País Horas (≈)
Canadá 29
Austrália 30
Alemanha 31
França 32
Reino Unido 33
Itália 34
Japão 34
Argentina 35
Estados Unidos 36
Coreia do Sul 37
Brasil 38
Rússia 38
Indonésia 39
África do Sul 40
México 41
Turquia 42
China 44
Índia 46

 

📌 O que esse gráfico mostra — sem malabarismo retórico

  • O Brasil trabalha mais horas que todo o G7.
  • Está acima da média das economias desenvolvidas.
  • Só fica atrás de países com:
    • alta informalidade.
    • longas jornadas industriais.
    • menor proteção social.

 

Dentro do G20, o Brasil não é exceção preguiçosa.

É regra de país que trabalha muito e recebe pouco.

 

🎯 O truque editorial: a “média mundial”

 

Diante desses dados, a pergunta é inevitável:

👉 Por que a Folha S. Paulo escolheu a “média mundial” como comparação?

 

Porque a média mundial mistura:

  • Países ricos e pobres.
  • Estados de bem-estar social com economias de subsistência.
  • Alta tecnologia com precarização extrema.

 

No topo aparecem Butão e Sudão — não por virtude, mas por necessidade bruta.

 

Comparar o Brasil com isso não esclarece.

👉 Distorce.

 

🧠 Horas trabalhadas não medem caráter

 

Trabalhar mais horas não é medalha moral.

É, muitas vezes, sintoma de:

  • Baixa produtividade.
  • Informalidade.
  • Atraso tecnológico.
  • Desorganização estrutural.

 

Países ricos trabalham menos porque produzem mais valor por hora.

 

Mas isso exige explicação.

E explicar exige jornalismo.

Culpar o trabalhador exige apenas um título enviesado.

 

🧨 Os títulos honestos que não foram escritos

 

Com os gráficos e rankings em mãos, manchetes possíveis seriam:

  • “Brasil trabalha mais que a maioria dos países do G7”.
  • “No G20, brasileiro está acima da média em horas trabalhadas”.
  • “Brasileiro não trabalha pouco — trabalha muito e ganha mal”.

 

Mas esses títulos não alimentam o velho complexo de vira-lata.

 

E parte da imprensa brasileira vive disso.

 

⚠️ O problema nunca foi o dado. Sempre foi o enquadramento.

 

O estudo é legítimo.

Os gráficos são claros.

O ranking é público.

 

O que contamina a análise é a opção editorial por um título que sugere culpa, mesmo quando os dados dizem o contrário.

 

Não chama o brasileiro de vagabundo.

Mas deixa a insinuação pairando no ar.

 

Como diria Nelson Rodrigues:

“Toda unanimidade é burra.”

 

E todo título que dispensa contexto é, no mínimo, suspeito.

 

💬 Provocação final

Agora temos:

  • Ranking global.
  • Comparativo do G20.
  • Gráficos completos.
  • Dados oficiais.

 

A pergunta é simples:

📌 Você ainda acredita no título — ou já percebeu que ele não sobrevive aos dados?

 

Porque estatística sem contexto não é informação.

É narrativa.

 

E narrativa vira-lata, quando repetida, vira linha editorial.

 

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