Há algumas colunas, revisitei um episódio do meu tempo de ensino fundamental. Um daqueles acontecimentos que, vistos hoje, ganham outro peso, outra leitura.
Nesta semana, avançamos um pouco no calendário da vida e chegamos ao ensino médio. É ali que mora a história de hoje. O que vou contar é um pequeno causo, desses que a gente prefere rir depois de muitos anos. Uma pérola de vergonha, daquelas que ficam guardadas não por orgulho, mas porque dizem muito sobre quem a gente foi… e sobre quem acabou se tornando.Não foi um grande evento, nem um momento heroico. Mas foi um daqueles episódios discretos que, sem pedir licença, ajudam a moldar a nossa persona.
Se você acha que escola serve só pra passar matéria, é porque teve professores medianos. Sei disso porque tive alguns desses. Mas também tive outros que entenderam cedo uma coisa essencial: adolescente aprende muito mais quando a lição vem disfarçada de trauma leve.
No meu segundo grau técnico — expressão que por si só já entrega a idade e dispensa RG — aconteceu um episódio tão pitoresco que seria um desperdício não transformá-lo em crônica.
O ano era 1994.
O cenário: Colégio Opet, na Avenida Iguaçu.Eu tinha acabado de mudar de escola e, sem amigos em sala, fiz o que todo adolescente socialmente deslocado faz: prestei atenção. Total atenção ao conteúdo passado em sala. Resultado? No terceiro bimestre, já estava passado de ano. Com direito a carta para os meus pais parabenizando o desempenho exemplar do filho.
A recompensa veio em forma de modernidade absoluta: um PC 486 com modem e acesso à internet da época — as gloriosas BBSs. Conexão direta pela linha telefônica, barulho de discagem que parecia uma nave espacial morrendo e uma regra clara: o pulso único só valia depois da meia-noite.
Foi assim que me tornei um notívago digital. Ficava online até três, quatro, às vezes cinco da manhã. Em alguns dias, nem dormia. Desligava o computador, me vestia e ia direto para a aula, sustentado exclusivamente por juventude e decisões ruins.
O efeito colateral foi imediato: comecei a dormir em sala.
Entendo que deve ser frustrante para um professor ver o aluno roncando enquanto entrega 100% de si para fazer alguém entender um conteúdo. Me estranha o fato de não lembrar ter sido acordado por nenhum professor. Acho que talvez ficassem com pena, pensando em algum dissabor doméstico pelo qual eu estaria passando.
E é aí que entra o professor Moacir. Ele dava aula de Editoração Gráfica. Uma figura emblemática! Daquelas que não apenas dominam o conteúdo, mas dominam a turma. Sabia ensinar, sabia entreter e, principalmente, sabia ler adolescentes como um livro aberto — daqueles de capa gasta.
Um dia, inevitavelmente, apaguei na aula dele.
Moacir percebeu. E, como todo bom professor experiente, entendeu que aquele momento não pedia bronca. Pedia pedagogia criativa.
Mandou a turma inteira sair de fininho da sala, chamou uma zeladora e pediu que ela me acordasse dizendo que os alunos da tarde precisavam entrar.
Acordei em pânico absoluto. Catei meus materiais, enfiei tudo na mochila e saí em disparada rumo à porta, tomado por um desespero que não consigo descrever em palavras.
Ao abrir a porta, dei de cara com a turma inteira — inclusive o Moacir — me esperando no corredor, todos juntos, rindo da obra-prima recém-executada.
Como diria o Bee Gees: The joke was on me.
(Embora, justiça seja feita, a versão do Faith No More seja infinitamente superior.)Eu poderia encerrar a crônica aqui mas, para o devido desfecho, preciso avançar trinta anos no tempo.
Minha esposa estava num workshop de fotografia quando ouviu um sujeito contar exatamente essa história, gargalhando com um grupo. Ela reconheceu o caso na hora.
— Acredita que aconteceu exatamente a mesma coisa com o meu marido? — comentou.
— E como ele se chama? — perguntou o autor da pegadinha.
— Geison.
Foi assim que minha esposa conheceu meu algoz preferido: o professor Moacir Chiarello.
Me pergunto: Quais as chances disso acontecer? O mundo é um ovo. E a vida, às vezes, tem um senso de humor refinado.
Existem professores… e existem Professores.
Com P maiúsculo, giz na alma e senso de humor calibrado.Os primeiros passam matéria.
Os segundos formam gente.Muitos professores cruzam nossa vida acadêmica sem deixar vestígios. Outros ficam gravados na memória porque entenderam algo essencial: ensinar não é apenas transmitir conteúdo, é criar histórias que a gente nunca mais esquece.
O Moa foi exatamente isso. Um professor que fez diferença. Não pelo susto, mas pela inteligência emocional. Não pela humilhação, mas pela lição. E, sobretudo, pelo respeito silencioso àquele aluno virado, cansado e (muito) perdido.
Graças às redes sociais, ainda consigo manter contato com ele e com outros Professores que marcaram minha trajetória.
E por todos eles, sigo imensamente grato.
Porque boas aulas a gente esquece.
Mas Professores de verdade… esses continuam me ensinando, mesmo sem saber que o fazem, trinta anos depois.