Minha casa já havia sido furtada três vezes.
Na primeira, instalamos alarme.
Na segunda, vieram as câmeras.
Na terceira, a empresa responsável pelas medidas de segurança fez a sugestão final, quase óbvia:
— Um cão de guarda.
O problema é que tínhamos filhos pequenos. E o medo de proteger a casa não podia ser maior que o medo de colocar alguém em risco dentro dela. Optamos então por um pastor alemão. Não por estética, mas por conhecer a índole da raça.
Ele chegou filhote. Quatro meses e alguns dias. Exalando aquela energia inesgotável que só os filhotes conhecem. Gizah, com três anos, e Geisinho, com sete, tornaram-se amigos no primeiro dia. Brincadeiras intermináveis, correria pelo quintal, gargalhadas. Energia drenada, crianças dormindo cedo. Um acordo perfeito.
O tempo passou. As crianças cresceram. O cachorro cresceu junto.
Cerca de oito meses depois, o alarme disparou. Notificando que alguém havia pulado o muro de casa. Saí da firma em disparada, já calculando o prejuízo. Ao chegar em casa, encontrei a cena: o cachorro sentado, todo faceiro, ao lado de uma jaqueta rasgada. Parecia exibir um troféu.
A missão inicial estava cumprida.
Mas, com o tempo, essa função ficou quase irrelevante. Algo muito maior foi tomando forma.
Eu gosto de fazer pequenos serviços em casa. E em todas as minhas incursões, lá estava ele. Às vezes atrapalhando. Às vezes pedindo atenção. Às vezes apenas observando, como quem diz: “Olha, estou aqui. Me comportando. Depois a gente vê o que faz.”
Lembro de sentar nos degraus da escada, no fim do dia, abrir uma cerveja e sentir sua cabeça apoiada nas minhas pernas. Um afago aqui, outro ali. Silêncio confortável. Companhia plena.
Mas nem tudo foi leveza. Ele também trouxe preocupação. Com a idade, desenvolveu uma dermatite severa. Feridas feias, abertas, sangrando. Algumas idas ao veterinário em modo desespero. Quem já passou por isso sabe: dói como ver um filho sofrer.
Nos últimos anos, a relação mudou de ritmo. A energia do filhote ficou no passado. Surgiu uma cumplicidade silenciosa. Eu sentava na varanda, e ele sentava ao meu lado. Sem pedir nada. Apenas estando.
Todas as noites, sem exceção, ele nos recebia. Dava uma volta pela vizinhança e entrava sempre depois do carro. Às vezes ficava do lado de fora do portão, quase envergonhado por ter demorado.
Sexta-feira foi assim também. Festa na chegada. Comeu a ração com o entusiasmo de sempre, como se fosse só mais uma noite comum.
No dia seguinte, ao abrir a porta, estranhei a ausência. Ele sempre me escoltava da casa até o carro. Fui procurar. Encontrei-o no cantinho onde dormia. De longe, parecia apenas descansando.
Cheguei mais perto.
— Gumball…
Nenhum movimento.
A alma gelou.
Chegando mais perto, ele parecia dormir tranquilamente. Em paz. Mas ao tocar o pelo, a constatação veio inteira, sem aviso, sem preparo: meu amigo havia partido.
É difícil descrever essa dor. Então não vou tentar.
Mas afinal, quais são as lições que um cão pode nos ensinar?
Não cabe a mim enumerá-las. Eu falharia. O que posso afirmar, com absoluta certeza, é que lealdade e amor incondicional existem. Eu vi isso todos os dias. Nos olhos de um anjo de quatro patas.
E minha casa nunca mais foi furtada.
Obrigado, Gumball.
Agradeço ao Criador por ter permitido que nossos caminhos se cruzassem. Você foi um cāo muito melhor do que eu merecia.