As lições que um cão pode nos ensinar

Foto de Geison Vendramin

Geison Vendramin

Minha casa já havia sido furtada três vezes.

Na primeira, instalamos alarme.

Na segunda, vieram as câmeras.

Na terceira, a empresa responsável pelas medidas de segurança fez a sugestão final, quase óbvia:

— Um cão de guarda.

O problema é que tínhamos filhos pequenos. E o medo de proteger a casa não podia ser maior que o medo de colocar alguém em risco dentro dela. Optamos então por um pastor alemão. Não por estética, mas por conhecer a índole da raça.

Ele chegou filhote. Quatro meses e alguns dias. Exalando aquela energia inesgotável que só os filhotes conhecem. Gizah, com três anos, e Geisinho, com sete, tornaram-se amigos no primeiro dia. Brincadeiras intermináveis, correria pelo quintal, gargalhadas. Energia drenada, crianças dormindo cedo. Um acordo perfeito.

O tempo passou. As crianças cresceram. O cachorro cresceu junto.

Cerca de oito meses depois, o alarme disparou. Notificando que alguém havia pulado o muro de casa. Saí da firma em disparada, já calculando o prejuízo. Ao chegar em casa, encontrei a cena: o cachorro sentado, todo faceiro, ao lado de uma jaqueta rasgada. Parecia exibir um troféu.

A missão inicial estava cumprida.

Mas, com o tempo, essa função ficou quase irrelevante. Algo muito maior foi tomando forma.

Eu gosto de fazer pequenos serviços em casa. E em todas as minhas incursões, lá estava ele. Às vezes atrapalhando. Às vezes pedindo atenção. Às vezes apenas observando, como quem diz: “Olha, estou aqui. Me comportando. Depois a gente vê o que faz.”

Lembro de sentar nos degraus da escada, no fim do dia, abrir uma cerveja e sentir sua cabeça apoiada nas minhas pernas. Um afago aqui, outro ali. Silêncio confortável. Companhia plena.

Mas nem tudo foi leveza. Ele também trouxe preocupação. Com a idade, desenvolveu uma dermatite severa. Feridas feias, abertas, sangrando. Algumas idas ao veterinário em modo desespero. Quem já passou por isso sabe: dói como ver um filho sofrer.

Nos últimos anos, a relação mudou de ritmo. A energia do filhote ficou no passado. Surgiu uma cumplicidade silenciosa. Eu sentava na varanda, e ele sentava ao meu lado. Sem pedir nada. Apenas estando.

Todas as noites, sem exceção, ele nos recebia. Dava uma volta pela vizinhança e entrava sempre depois do carro. Às vezes ficava do lado de fora do portão, quase envergonhado por ter demorado.

Sexta-feira foi assim também. Festa na chegada. Comeu a ração com o entusiasmo de sempre, como se fosse só mais uma noite comum.

No dia seguinte, ao abrir a porta, estranhei a ausência. Ele sempre me escoltava da casa até o carro. Fui procurar. Encontrei-o no cantinho onde dormia. De longe, parecia apenas descansando.

Cheguei mais perto.

— Gumball…

Nenhum movimento.

A alma gelou.

Chegando mais perto, ele parecia dormir tranquilamente. Em paz. Mas ao tocar o pelo, a constatação veio inteira, sem aviso, sem preparo: meu amigo havia partido.

É difícil descrever essa dor. Então não vou tentar.

Mas afinal, quais são as lições que um cão pode nos ensinar?

Não cabe a mim enumerá-las. Eu falharia. O que posso afirmar, com absoluta certeza, é que lealdade e amor incondicional existem. Eu vi isso todos os dias. Nos olhos de um anjo de quatro patas.

E minha casa nunca mais foi furtada.

Obrigado, Gumball.

Agradeço ao Criador por ter permitido que nossos caminhos se cruzassem. Você foi um cāo muito melhor do que eu merecia.

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