(inclusive eu, infelizmente)
Quando paro pra pensar no Império Romano, não consigo evitar uma reflexão meio incômoda sobre a natureza humana. Esse assunto, inclusive, já apareceu algumas vezes no nosso saudoso podcast O Pior do Brasileiro. E eu confesso: tenho uma opinião (meio) formada sobre isso tudo.
Acho que, quando o sujeito nasce pra ser bicho ruim, não adianta nadar contra a corrente. É quase uma sina. Do mesmo jeito que, quando alguém nasce pra ser bom — ou, como costumo dizer, nasce pra sofrer — por mais que a vida e os outros participantes desse reality show cósmico lhe castiguem, ele segue tentando fazer a coisa certa. Também é sina.
E é essa reflexão que me leva direto ao título da coluna de hoje:
todo vilão é herói da própria história.
Duvido que alguém acorde e firme esse propósito como primeiro pensamento do dia de ser “a pessoas mais babaca que já existiu”. Entretanto, a gente acorda atrasado, com boleto vencido, dor nas costas e, de vez em quando, uma convicção perigosa: a de estar certo.
Todo mundo tem uma boa explicação para o próprio comportamento. A grosseria se justifica como “sinceridade”. O silêncio, sinônimo de “maturidade”. A impaciência atende pelo nome de “limite”. Tudo questão de narrativa. E, cá entre nós, somos ótimos roteiristas quando assumimos o protagonismo.
A História está cheia de vilões que se achavam heróis. Acredito que até o ser mais abjeto da humanidade – aquele cara do bigodinho estranho – devia se ver como salvador da Alemanha. Convencido de que estava fazendo o mal necessário em nome de um bem maior. Ao diminuirmos muito as proporções, é exatamente assim que funcionamos no dia-a-dia, só que sem uniformes, exércitos ou discursos inflamados… mas munidos de uma arma extremamente devastadora: o Wi-Fi.
No meio de um conflito, a grande maioria das pessoas escolhe abraçar um lado, colocar a faca entre os dentes e partir pra cima. Eu escolho um divã imaginário. Antes de apontar o dedo, tento fazer aquele exame de consciência meio chato, meio inevitável, muito desconfortável, tentando descobrir se, por acaso, não sou eu o vilão do capítulo. É um hábito péssimo para quem gosta de briga, mas ótimo para quem gosta de dormir bem. Enquanto o outro está convicto de que tem razão absoluta, me flagro revisando mentalmente a cena, procurando falas que poderiam ter sido evitadas, tons que passaram do ponto, silêncios que disseram mais do que eu gostaria.
Não é altruísmo. É desconfiança mesmo.
De mim.
Porque, do alto dos meus 48, a experiência ensina uma coisa incômoda: toda vez que alguém tem a certeza de estar 100% certo, é muito provável que esteja 100% insuportável. No cotidiano, ninguém se enxerga como injusto. A gente se enxerga como cansado. Pressionado. Injustiçado. Como alguém que “só reagiu”. É confortável. E muito humano. O problema é que, enquanto cada um defende sua própria versão heroica da história, as pequenas maldades passam despercebidas. A ironia desnecessária. O desprezo elegante. O silêncio estratégico. Nada disso parece grave quando analisado sob o seu ponto de vista.
Talvez maturidade não seja ser o herói da própria história, mas aceitar que, em alguns capítulos, a gente faz o papel que não gosta de assistir.
E está tudo bem.
Tudo certo desde que, haja revisão de roteiro.
No fim das contas, esse exercício meio irritante de se perguntar “e se eu estiver errado?” não me torna melhor que ninguém. Só me torna um pouco menos perigoso.
E, convenhamos, num mundo cheio de certezas absolutas, já é alguma coisa.
Termino este texto desejando a você, que está novamente comigo aqui, um extremamente excelente e muito próspero 2026! Que seja o melhor ano da sua vida!