Por Francisco Tramujas
Parece que finalmente descobrimos o futuro do jornalismo investigativo, e ele não está em redações barulhentas, mas em sessões de silêncio absoluto. Quem precisa de documentos vazados, entrevistas gravadas ou fontes verificáveis quando se pode contar com a tecnologia de ponta do plano espiritual?
A jornalista Malu Gaspar, em um salto evolutivo que deixaria até Chico Xavier com inveja profissional, inaugurou o que podemos chamar de “Jornalismo de Transcomunicação”. Seus textos, cada vez mais polêmicos e convenientemente alinhados com suas próprias teses, apresentam uma metodologia revolucionária: a Fonte Anônima do Além.
As regras são simples:
- A tese vem primeiro. Ela decide qual narrativa (geralmente de conflito institucional) deve prevalecer.
- A apuração? Espiritual. Fontes humanas são falíveis, tendenciosas e podem processar. Já os espíritos, ah, esses são a fonte primária ideal: não contestam, não pedem retratação e, por uma mera coincidência cósmica, sempre corroboram a visão da autora.
- O “disse-me um conhecedor” do Além. A clássica fórmula “fontes próximas ao assunto”, foi substituída por uma aura de mistério quantificável. Como em seus textos recentes diziam que “militares de alta patente” são contra – fontes estas nunca encontradas neste plano-, agora em sua nova coluna estas aparecem como sete vozes anônimas (número cabalístico, sem dúvida) sussurraram em uníssono que o ministro Alexandre de Moraes teria procurado cinco vezes (precisão numérica impressionante) o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, para pressioná-lo.
É jornalismo de precisão… precognitiva. O fact-checking é feito direto na mesa branca, dispensando chatices como ouvir o outro lado. Afinal, para que contatar as partes envolvidas quando se tem um coro de sete almas bem-informadas do submundo dos bastidores?
Mas eis que a rude realidade materialista insiste em atrapalhar a narrativa. As próprias entidades citadas – Moraes e Galípolo – ousaram emitir notas públicas, desmentindo a versão do Além. Alegaram, de forma terrivelmente mundana, que os tais encontros tratavam de um assunto completamente diferente: pedidos de ajuda de Moraes sobre a Lei Magnitski aplicada contra ele pelo governo Trump.
Um detalhe irrelevante, claro.
O que importa é o feeling, a vibração das fontes. Que os desencarnados do off celestial digam que era pressão política, enquanto os encarnados afirmam que era defesa pessoal, é apenas um ruído dimensional. A verdade jornalística, nesse novo paradigma, não se prende a esses desmentidos “físicos”. Ela é mais sutil, mais fluida. É a Verdade por Acordo Espiritual.
Portanto, aqueçamos nossos copos d’água e afinemos nossos pineais.
O novo paradigma chegou. Não lemos mais uma coluna; assistimos a um briefing desencarnado. E o único “editor-chefe” que aprova essa pauta está, literalmente, acima de qualquer conselho de ética, processo por danos morais ou verificação factual.
Bem-vindos à era do Ghostwriting no sentido mais estrito do termo. O resto de nós, meros jornalistas terrestres que ainda nos sujeitamos a ouvir os dois lados e aguardar posicionamentos, só podemos admirar, de nosso plano material, a coragem de publicar uma acusação grave baseada em sete fantasmas contra o desmentido sólido dos acusados.
Que o exemplo seja seguido! Em breve, teremos: Política (com consultoria do espírito de Tancredo Neves), Economia (guias de Adam Smith), e a aguardada coluna de culinária “Receitas da Vovó Desencarnada – Agora com 7 Fontes Anônimas que Aprovam o Sabor”.
A senhora Gaspar não é uma repórter; é uma portal-voz. E suas fontes? Estão sempre além de qualquer questionamento.
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Fontes:
- Coluna de Malu Gaspar no O Globo (12/12/2024): “Por que Moraes não pode ser incomodado” – Onde a autora afirma, com base em 7 fontes anônimas, que Alexandre de Moraes procurou Galipolo 5 vezes para pressioná-lo.
- Nota Oficial de Alexandre de Moraes (13/12/2024): Nota à Imprensa – Ministro Alexandre de Moraes – O ministro desmente a versão, explicando que os encontros tratavam de pedidos de ajuda sobre a Lei Magnitski aplicada contra ele pelo governo Trump.
- Nota Oficial de Gabriel Galipolo (13/12/2024): “Nota do presidente do Banco Central, Gabriel Galipolo, sobre notícia publicada hoje” – O presidente do BC corrobora a versão de Moraes, detalhando que os encontros foram solicitados pelo ministro para tratar de temas relacionados à Lei Magnitski e sanções internacionais.