‘Desculpe-me pela minha aparente arrogância’.
Por Francisco Tramujas
Essa frase sempre me provoca. E ela me leva diretamente a uma situação que vivi há quase 15 anos.
Em 2010, eu era gestor de marketing da Revista InvestMais, uma das publicações mais consolidadas sobre Bolsa de Valores no Brasil naquele período. Ao mesmo tempo, eu acumulava a função de editor-chefe — não por vaidade, mas por formação: jornalista, investidor de ações e alguém que já respirava mercado de capitais há anos.
Hoje, em pleno final de 2025, ainda falamos de uma Bolsa pouco explorada pelos brasileiros. Menos de 6 milhões de pessoas físicas investem em renda variável. Naquela época, porém, o cenário era ainda mais restrito: pouco mais de 600 mil investidores.
Era um mercado imaturo.
E justamente por isso, perigoso.
Nosso papel na revista nunca foi falar do “ativo da moda” ou da ação que já havia subido. Uma revista mensal nasce velha se olhar apenas para o retrovisor. As matérias eram investigadas, apuradas e construídas 45 a 60 dias antes de chegarem às bancas.
O nosso foco era outro:
👉 Enxergar tendências.
👉 Analisar fundamentos.
👉 Identificar, entre mais de 400 empresas listadas, aquelas que poderiam — ou teriam capital — para se tornar a próxima joia da coroa.
Nada simples.
E sejamos honestos: em um ambiente no qual o presente é sempre mais sedutor do que o futuro, acertar consistentemente no médio e longo prazo cobra um preço invisível — a arrogância silenciosa.
Sim, ela bateu à porta.
Talvez pelos acertos.
Talvez pelo reconhecimento.
Talvez pela falsa sensação de que “já tínhamos visto de tudo”.
Até o dia em que aprendi uma das maiores lições da minha vida profissional. E não foi a partir de um erro, mas de um preconceito.
O nome do entrevistado era Gustavo Cerbasi.
Naquele período, Cerbasi já era conhecido e reconhecido. Suas palestras lotavam auditórios com 3.000, 4.000, 5.000 pessoas, todas pagando para ouvi-lo falar sobre educação financeira — algo que, para muitos no mercado tradicional, ainda soava raso ou simplista.
No meu julgamento apressado, trazer uma entrevista com ele pouco acrescentaria aos leitores da revista.
“Finanças pessoais”, pensei.
“Conteúdo básico demais para um público sofisticado.”
Erro clássico de quem confunde complexidade com valor.
Ao conhecê-lo, veio a aula.
Cerbasi era funcionário de TI em um banco e migrou para a área de análise de balanços sem nunca ANTES ter se aprofundado formalmente no tema. O desafio o levou a Nova York, onde estudou com Aswath Damodaran, considerado o papa da análise fundamentalista moderna.
E ele aprendeu. Muito.
O que eu esperava ser uma entrevista rasa, de um “planilheiro de finanças pessoais”, transformou-se em 90 minutos de análise fundamentalista hard core, em um nível que superava — com folga — muitos MBAs de mercado de capitais que eu já havia feito.
Ali, duas lições ficaram claras:
- Nunca subestime alguém antes de conhecê-lo.
- Nunca confunda linguagem simples com pensamento raso.
Mas a lição final ainda viria.
Na última pergunta, fui direto:
“Com todo esse conhecimento profundo sobre mercado de capitais, leitura de balanços e Bolsa de Valores, por que seus livros e palestras são focados em temas tão básicos como finanças pessoais?”.
A resposta ficou gravada em mim até hoje.
Cerbasi respondeu com a clareza de quem entende pessoas antes de mercados:
“Quando me formei em análise de balanços, eu dava palestras que não enchiam uma sala com 40 pessoas. Então entendi que não adianta entregar mais do que a capacidade que as pessoas têm de absorver.
Eu precisava preparar as pessoas no básico. Só assim, com o tempo, elas teriam capacidade — ou desejo — de compreender temas mais complexos.
Quando comecei a falar de finanças pessoais, os auditórios passaram a ficar pequenos.”
O resto virou história.
Livros best-sellers.
Auditórios cada vez menores para tanta gente: 500, 1.000, 2.000, 5.000 pessoas.
Uma geração inteira alfabetizada financeiramente.
Essa lição conversa diretamente com tudo o que defendo no meu livro Marketing Estratégico para Revolucionar Mercados, Pessoas e o Mundo:
👉 Estratégia não é mostrar o quanto você sabe.
👉 Estratégia é levar o outro até onde ele consegue ir.
👉 Liderança não é complexidade, é tradução.
Toda vez que a arrogância tenta nos convencer de que “o básico é simples demais”, vale lembrar:
- Não existe inovação sem base.
• Não existe profundidade sem preparação.
• Não existe influência sem empatia cognitiva.
Se em algum momento eu soar arrogante, espero ter a lucidez de repetir — e realmente compreender — essa frase:
‘Desculpe-me pela minha aparente arrogância’.
Porque conhecimento que não se conecta, não transforma.
E estratégia que não educa, não escala.
🔻 Já Sabe Muito?
Talvez o maior erro de quem acredita que “já sabe muito” seja achar que o básico não merece atenção.
Complexidade impressiona pares. Simplicidade transforma pessoas.
Agora deixo a provocação — sincera — para você:
👉 Quantas vezes você já desqualificou um tema, um profissional ou uma ideia apenas por parecer “simples demais”?
👉 Será que estamos ensinando além da capacidade de absorção… ou abaixo da real necessidade das pessoas?
Talvez o verdadeiro papel de quem sabe mais não seja mostrar profundidade,
mas construir degraus.
Vamos conversar nos comentários.
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