A economia em looping: a bolha da IA ou um glitch de dinheiro infinito?

Foto de Tramujas Jr.

Tramujas Jr.

Por Francisco Tramujas

Nos últimos meses, uma frase viralizou no X (antigo Twitter): “A economia inteira dos Estados Unidos agora são sete empresas mandando um trilhão de dólares entre si.”

 

O gráfico que bombou na Bloomberg revela o surgimento de uma economia em circuito fechado: #Nvidia, #Microsoft, #OpenAI, #AMD, #Google e #Meta — investindo umas nas outras, comprando chips, vendendo serviços, como se o dinheiro não pudesse sair desse ecossistema.

É o ápice de um mercado movido por promessas com pouca verificação real de lucratividade.

 

Não seria a primeira vez que vendemos o futuro antes dele existir

A história da tecnologia está repleta de exemplos em que a inovação era indiscutível, mas o modelo econômico, não:

 

Ano Bolha Promessa O que deu errado
2002-2002 Ponto com Bastava ter um “.com” na empresa para estar gamhar valor Muitas destas empresas não tinham clientes e muito menos plano de negócios
2006–2010 Second Life Nova economia digital — trabalho, lojas, prédios, tudo virtual Crescimento sem escala: usuários entravam por hype, não por valor diário
2012–2014 Google Glass O wearable que substituiria o smartphone Falta de utilidade prática, resistência social e privacidade
2010–2016 TVs 3D A nova forma de consumir entretenimento Oferta sem demanda real; tecnologia desconfortável

 

O que esses casos ensinaram?

“Tecnologia promissora + hype financeiro = não necessariamente valor sustentável.”

 

A diferença agora: a conta de luz do futuro

A IA generativa não se baseia apenas em ideias. Ela queima energia — literalmente.

Cada avanço exige mais núcleos, mais GPUs, mais megawatts. E quase todo o dinheiro do ecossistema acaba na mesma porta: #Nvidia.

 

 

  • Quem quer rodar IA → compra chips da Nvidia
  • Quem investe em IA → financia quem compra chips da Nvidia
  • Quem não compra → fica para trás e precisa… comprar chips da Nvidia

 

 

É o capitalismo circular das placas de vídeo.

 

O déjà vu do #Second Life como metáfora perfeita

O Second Life criou um universo com:

  • Empresas, bancos, mercados e moedas virtuais;
  • Pessoas comprando terrenos digitais por milhares de dólares;
  • Cobertura entusiasmada da mídia e
  • Governos criando embaixadas virtuais

Soa familiar? Hoje trocamos:

 

  • terrenos virtuais → tokens computacionais;
  • avatares → modelos de linguagem;
  • servidores convencionais → data centers que detonam energia

 

Mas com um detalhe crucial:

  • No Second Life, quando o interesse caiu, a estrutura simplesmente murchou.
  • Na IA, o custo físico permanece. Data centers não evaporam com o tendências (hype).

O risco deixou de ser só especulativo. Agora, ele é material.

 

A economia das Big Techs está apostando no inevitável

Todos acreditam que:

  • Toda empresa será “empresa de IA”;
  • Todo trabalho será ampliado por IA;
  • Toda tecnologia dependerá de modelos generativos

 

Mas se o futuro não vier na velocidade esperada? Quem sustenta o castelo de clusters e data centers?

  • Se a IA não compensar… a fatura será astronômica

 

 

Disrupção e bolha podem coexistir. A internet de 2000 também foi uma bolha. E ainda assim, mudou o mundo.

 

Mas convém lembrar: Entre a tendência (hype) e a realidade existe uma fronteira — e ela costuma ser cara.

 

1️⃣ A primeira grande “evangelização digital”: a bolha das ponto com (2000–2002)

 

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No final dos anos 1990, bastava adicionar “.com” ao nome e o mercado abria o caixa. Investidores apostavam em empresas que não tinham lucro, clientes, nem plano — mas tinham um site.

 

Pontos que vou explorar:

  • Excesso de capital especulativo no mercado de ações;
  • Empresas sem modelo de negócios validado, mas com forte narrativa de futuro;
  • com, Webvan, e outras como ícones do hype sem ROI;
  • Alta do NASDAQ e posterior derretimento (-78%).

 

Paralelos com a atualidade: AI, startups sem unit economics, metaverso, NFTs

 

Lição central: crescimento de base frágil explode

“A internet não quebrou em 2000 — só quebrou a ilusão de que branding sem cliente dá lucro.”

 

“A inovação não quebra mercados. O que quebra é a ilusão de que hype substitui resultado.”

 

Empresas-ícone do exagero:

Pets.com → faliu em 268 dias após IPO;

Webvan → queimou US$ 1 bilhão prometendo “entregas de 30 minutos” sem demanda.

 

A lógica da época:

  • A internet vai dominar o mundo — então qualquer negócio online vale bilhões.

 

A realidade:

  • A internet dominou o mundo. Mas só quem tinha cliente sobreviveu.

 

O Nasdaq estourou, derreteu -78%, e sumiram: startups, fortunas e o discurso “crescemos primeiro, descobrimos o lucro depois”.

 

📌 Lição nº1:

  • O mercado não paga por potencial.
  • O mercado paga por comportamento humano transformado.

 

2️⃣ Quando o mundo digital tentou substituir o real: o caso Second Life (2006–2010)

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Segundo a imprensa da época, ninguém compraria imóvel físico em 2010. Shopping? Trabalho? Namoro? Tudo seria virtual.

 

Governos abriram “embaixadas virtuais” no #Second Life. Marcas investiram milhões em terrenos que ninguém visitava.

 

De novo, os fatores neuroeconômicos:

 

📌 Dopamina da novidade

📌 Medo de ficar para trás (FOMO corporativo)

📌 A crença de que se é tecnológico, é melhor do que o real

 

Resultado?

A realidade venceu. O humano prefere tocar, sentir, encontrar, olhar nos olhos.

 

📌 Lição nº2:

  • Adoção exige recompensa emocional concreta, não promessa futurista.

 

Exatamente o que Everett Rogers, o fantástico psicólogo cunhou ainda na década de 1960 o conceito de Curva da Adoção, já dizia:

 

Nova tecnologia precisa ser compatível com o comportamento atual para prosperar.

 

3️⃣ O “replay” do erro: Metaverso 2021 e suas sequelas

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Mark Zuckerberg apostou US$ 36 bilhões que as pessoas iriam… trabalhar usando óculos desconfortáveis e se encontrar com colegas sem precisar caminhar para tal.

 

“Será inevitável.” — dizia Meta

O consumidor respondeu:

“Será quando ficar legal, útil e confortável.”

 

Enquanto isso:

  • Terrenos em Decentraland foram vendidos mais caros que imóveis reais;
  • Hoje a plataforma têm menos usuários que uma pizzaria médio porte em final de semana.

 

🔥 Repetição do roteiro:

  • Narrativa futurista sedutora;
  • Marcas com medo de perder o trem;
  • Capital correndo atrás de “algo novo” e
  • Ausência de demanda real → bolha

 

4️⃣ NFTs: o ápice do “capital burro” (2020–2022)

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Pagar milhões por uma imagem de macaco que qualquer um consegue copiar? Claro.

Era investimento. (Dizia a mídia… até parar de dizer.)

 

Exemplo icônico:

  • Bored Ape 2021: vendido por US$ 3,4 milhões
  • Hoje: vale menos que um carro usado popular

 

📌 Lição nº3:

Especulação sem utilidade é só… especulação.

 

5️⃣ A grande aposta atual: IA sem produto

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A nova febre? Startups que não têm produto, só pitch.

 

O discurso mudou: “startup” ➡ agora é: “IA” .

 

Burn rate mensal de milhões.

Receita? “Chega depois”.

ROI? “É questão de fé”.

 

A IA não é a bolha. A bolha é acreditar que IA sem problema real vale trilhões.

 

📌 Lição nº4:

Adoção só acontece quando a tecnologia some e o benefício aparece.

 

Neuromarketing puro: O cérebro gosta do que é simples.

 

6️⃣ Por que continuamos repetindo o erro?

Porque o ser humano não evoluiu na mesma velocidade que a tecnologia.

 

O que guia bolhas:

  1. Dopamina (novidade);
  2. Ansiedade social (não ficar para trás);
  3. Reforço social (a mídia aplaudindo);
  4. Viés de confirmação (todo mundo concorda → deve ser verdade)

 

O que guia a sobrevivência:

  • Conveniência;
  • Prazer e
  • Controle.

 

Resultado

 

  • A tecnologia só prospera quando encaixa nisso.
  • Narrativa sem verdade gera bolha.
  • Narrativa com propósito gera mercado.

 

7️⃣ O futuro inevitável: mais bolhas à vista

As próximas candidatas à implosão:

  • “AI para tudo”;
  • Smart Cities sem cidadãos;
  • Healthtechs que ignoram médicos e pacientes;
  • Cripto que não resolve problema… de ninguém (hoje só resolve a via de especuladores);
  • Mas a maior de todas será a bolha do “crescimento a qualquer preço”.

 

O capital está aprendendo — tarde — que lucro não é pecado.

 

O novo não vence o antigo

Só vence o que melhora a vida das pessoas.

 

Bolhas desaparecem. Inovações verdadeiras viram hábitos.

 

Quem respeita o ser humano, cresce. Quem ignora o comportamento humano, quebra.

 

“Se o público não adotar, não adianta o valuation. Sonho sem ROI se chama bolha.”.

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