Por que o Agronegócio passa ileso de cortes quando o tema é responsabilidade fiscal e corte de gastos do governo?

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Tramujas Jr.

por Francisco Tramujas

 

“Por que detestam tanto o agronegócio, quando este é o carro-chefe do PIB brasileiro?”

 

A pergunta, que parece uma defesa inocente, é na verdade uma armadilha retórica. Ela transforma uma análise econômica legítima em uma guerra cultural, desviando o foco do que realmente importa:

  • O Brasil está obtendo retorno proporcional aos trilhões de reais que injeta no agronegócio todos os anos?

 

A resposta é simples e incômoda: Não.

O setor que se proclama símbolo do livre mercado é, na prática, o mais dependente da máquina estatal, o que mais recebe incentivos diretos e indiretos, e o que menos retorna ao Estado em impostos, empregos qualificados e inovação.

 

Trata-se, portanto, de um programa de assistência corporativa em escala continental, disfarçado de eficiência produtiva.

 

  1. A Anatomia dos Subsídios: o Estado como Sócio Majoritário Silencioso

 

A narrativa de que o agronegócio brasileiro se sustenta sozinho é uma das maiores ilusões econômicas do país. O agro não apenas conta com o Estado — ele depende do Estado para existir em sua atual forma e escala.

 

Essa dependência está organizada em três grandes pilares de subsídios: financeiros, fiscais e estruturais.

 

  1. Subsídios Financeiros Diretos: o crédito barato pago pelo contribuinte

 

O Plano Safra 2024/2025 alcançou o valor recorde de R$ 500 bilhões — equivalente a 13,7% de todo o Orçamento Federal de 2025.

Esses recursos são disponibilizados aos produtores rurais a juros subsidiados, ou seja, abaixo do custo real de captação do governo.

 

Para viabilizar esse crédito artificialmente barato, o Tesouro Nacional desembolsa anualmente cerca de R$ 21,5 bilhões em equalização de juros, transferindo dinheiro público diretamente aos bancos para que cobrem taxas reduzidas do produtor rural.

 

Trata-se, portanto, de um modelo que beneficia duas pontas poderosas:

  1. O sistema financeiro, que recebe juros garantidos pelo Tesouro,
  2. E o agronegócio, que acessa crédito mais barato que qualquer outro setor da economia.

 

Um livre mercado sustentado por R$ 21,5 bilhões anuais do Estado é, no mínimo, uma contradição.

 

  1. Subsídios Fiscais: a renúncia invisível que sangra o orçamento

 

Se o crédito subsidiado é o braço visível da ajuda estatal, os benefícios fiscais são a parte submersa do iceberg. O agronegócio é o setor com maior volume de renúncias tributárias consolidadas, que ultrapassam R$ 50 bilhões anuais.

 

São desonerações, isenções e diferimentos que, somados, representam mais recursos do que o orçamento anual do Ministério da Saúde.

 

Incentivo Fiscal Descrição Custo Estimado (R$ bi/ano)
Isenção de Imposto de Importação Máquinas, tratores e colheitadeiras entram sem pagar imposto 8 a 12
Alíquota zero de PIS/Cofins Defensivos e fertilizantes são isentos dessas contribuições 15 a 20
Guerra Fiscal do ICMS Estados como MT e GO concedem isenções interestaduais 10 a 15
Subtributação do ITR Imposto Territorial Rural ínfimo frente ao IPTU urbano 10 a 15
Total Estimado de Renúncia Fiscal 50 a 60

 

 

 

Comparativo revelador:

A arrecadação do ITR (Imposto Territorial Rural) de toda a área plantada no agronegócio brasileiro – de aproximadamente 75 milhões de hectares – é de cerca de R$ 2 bilhões por ano, enquanto apenas a cidade de São Paulo – com uma área de aproximadamente 152 mil hectares – arrecada entre R$ 15 e 20 bilhões de IPTU — em uma área quase 500 vezes menor.

 

Em outras palavras, o Brasil cobra mais imposto sobre o apartamento de 60 m² de um trabalhador urbano do que sobre uma fazenda de milhares de hectares produtivos.

 

  1. Subsídios Indiretos e Estruturais: a infraestrutura pública a serviço do privado

 

O terceiro pilar é o mais disfarçado — o dos subsídios indiretos, especialmente em infraestrutura e tecnologia.

 

  • Infraestrutura logística: O agro depende intensamente de rodovias, portos e ferrovias financiados com dinheiro público. Estima-se que o subsídio logístico implícito — o custo que o Estado assume para escoar a produção privada — supere R$ 100 bilhões por ano.

    O Custo Brasil, tão criticado pelo próprio setor, é paradoxalmente um benefício indireto: o setor paga pouco pelo uso intensivo de estruturas públicas.

 

  • Pesquisa e Desenvolvimento – o caso da Embrapa: A Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) é o exemplo mais emblemático da contribuição estatal ao agro.

    Criada em 1973, financiada integralmente com recursos públicos, a Embrapa transformou o Cerrado, antes considerado improdutivo, em uma das áreas agrícolas mais férteis do mundo.

    Seu orçamento gira em torno de R$ 3,5 bilhões anuais, e seus avanços em genética, sementes e manejo tropical são a base científica de todo o sucesso do agronegócio brasileiro.

 

Contudo, há um desequilíbrio: os ganhos de produtividade gerados pela pesquisa pública foram amplamente privatizados, apropriados por grandes grupos agrícolas e exportadores de commodities.

Pouco desse valor retorna em forma de impostos, royalties ou reinvestimento social. Em outras palavras, a inovação é pública, o lucro é privado.

 

  1. O Retorno Decepcionante: o ROI Fiscal e Social do Agro

 

Mesmo diante desse ecossistema de estímulos, o retorno do agronegócio ao Estado e à sociedade é muito aquém do investimento público realizado.

 

  1. ROI Fiscal: o sócio que investe pesado e lucra pouco

Enquanto a indústria paga entre 25% e 35% de carga tributária efetiva, o agronegócio recolhe entre 5% e 8%.

 

O resultado é um desequilíbrio gritante: para cada R$ 1 milhão gerado de PIB, o agro devolve ao Estado R$ 50 a 80 mil em impostos; a indústria devolve R$ 250 a 350 mil.

 

Setor Carga Tributária Efetiva Retorno Fiscal por R$ 1 mi de PIB
Agronegócio 5% a 8% R$ 50 a 80 mil
Indústria 25% a 35% R$ 250 a 350 mil

 

 

O Estado brasileiro, portanto, é um sócio que financia 80% do risco e retém 20% do ganho. E ainda assim, quem clama por responsabilidade fiscal raramente inclui os subsídios do agro nessa conta.

 

  1. ROI Social: riqueza concentrada, emprego escasso

Embora responda por 25% do PIB, o agronegócio gera apenas 20% dos empregos formais.

Sua estrutura produtiva é cada vez mais mecanizada, com baixa intensidade de trabalho humano e alta informalidade (cerca de 60%).

 

Indicador Agronegócio Indústria
Participação no PIB ~25% ~11%
Empregos formais ~20% ~15%
Informalidade ~60% ~25%
Salário médio Baixo Médio/alto
Produtividade social Alta, mas concentradora Mais distributiva

 

O agro, portanto, gera PIB sem gerar prosperidade.

Enquanto o valor produzido se concentra em grandes grupos exportadores, o trabalhador rural continua entre os mais mal remunerados da economia.

 

A chamada força do campo se apoia em um modelo que enriquece poucos e distribui pouco — uma contradição com o discurso de motor da nação.

 

  1. A Radiografia Fiscal: onde está o verdadeiro peso do Estado

Para entender o desequilíbrio, basta observar o Orçamento da União de 2025. Enquanto o debate público se concentra em cortes de programas sociais, os maiores ralos fiscais estão blindados politicamente.

 

Categoria Valor (R$ bi) % do Orçamento
Juros da dívida pública 924 24,4%
Subsídios totais (majoritariamente agro) 678 17,9%
Plano Safra (crédito agro) 516 13,7%
Bolsa Família 168 4,4%
Educação 226 6,0%
Saúde 216 5,7%

 

 

Ou seja: mais da metade do orçamento brasileiro é absorvida por juros da dívida e subsídios, enquanto os investimentos sociais e em ciência somam menos de 15%.

Mas o debate público insiste em culpar o custo do social, quando o verdadeiro desequilíbrio está no custo do corporativo.

 

  1. As Lições dos EUA e da China: o endividamento produtivo como motor de prosperidade

 

Há um equívoco recorrente na política econômica brasileira: o de acreditar que um país cresce cortando gastos. As duas maiores potências do planeta — Estados Unidos e China — provam o contrário: cresceram gastando mais e se endividando para investir.

País Participação do Agro no PIB Estratégia Nacional
EUA <1% Estado investe pesado em tecnologia, software, defesa e inovação
China ~7% Agro subsidiado, mas integrado à indústria e à ciência
Brasil ~25% Agro subsidiado, primário, com baixo retorno fiscal e tecnológico

Enquanto EUA e China usam o endividamento para gerar valor de longo prazo, o Brasil o utiliza para financiar commodities de baixo valor agregado. A diferença não é de ideologia, é de maturidade estratégica.

 

  1. Balanço Geral: o ROI do Agro para o Brasil

 

Indicador Investimento Público (R$ bi/ano) Retorno Estimado ao Estado Observação
Plano Safra (crédito) 500 21,5 (equalização de juros) Crédito subsidiado
Renúncias fiscais 50 a 60 Não há contrapartida direta
Infraestrutura e logística ~100 Uso intensivo de ativos públicos
Embrapa (P&D)                3,5 Lucros privatizados
Total de investimento público anual ~650 bilhões Retorno tributário efetivo: 5 a 8% do PIB agro (~R$ 80 bi) ROI fiscal líquido negativo

 

 

A hora da razão

 

O debate não é sobre “amar” ou “odiar” o agro. É sobre entender se o modelo atual gera retorno proporcional ao que custa à sociedade.

Hoje, não gera.

 

Enquanto o Brasil continuar tratando o agronegócio como vaca sagrada — imune a cortes, a auditorias e a qualquer debate sobre contrapartidas —, permanecerá refém de um modelo que consome recursos públicos e devolve pouco.

 

A verdadeira pergunta, portanto, não é “por que detestam o agro?”.

É: Por quanto tempo ainda aceitaremos que o maior programa de subsídios do país continue intocável, enquanto nos dizem que o problema fiscal está no prato de comida do pobre, no reajuste do salário mínimo e no salário do professor?

 

A verdadeira pátria não é o agro. A verdadeira pátria é o investimento inteligente — aquele que gera valor, ciência, autonomia e justiça social.

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