Por Francisco Tramujas
A História é uma professora paciente, mas a humanidade insiste em ser um aluno burro. No fim dos anos 1920, os Estados Unidos, confiantes em sua força econômica e embalados pela euforia do pós-guerra, decidiram que tarifas alfandegárias seriam a solução mágica para proteger empregos e fortalecer sua indústria. O resultado dessa miopia foi registrado nos livros com letras garrafais: o crash da Bolsa de Nova York em 1929 e a posterior Grande Depressão.
Agora, em 2025, Donald Trump — com seu tarifaço digno de remake mal dirigido — decide repetir a fórmula. E o mais trágico (ou cômico, dependendo do ponto de vista) é ver analistas, bajuladores e até setores acadêmicos tratando isso como se fosse uma jogada ousada de “estratégia nacionalista”. É a burrice com terno novo, mas com a mesma essência fedorenta.
O papel esquecido das tarifas na quebra de 1929
É confortável para os manuais de economia reduzir 1929 ao colapso do mercado acionário. Mas isso é simplificação barata. O Smoot-Hawley Tariff Act, de 1930, funcionou como gasolina despejada em uma fogueira que já ardia. Ao taxar mais de 20 mil produtos estrangeiros, os Estados Unidos acreditaram estar protegendo sua economia. O que conseguiram foi o oposto: o comércio internacional despencou 66% em apenas quatro anos, países retaliaram e a recessão se transformou em depressão global.
Essa “amnésia coletiva” é curiosa. É como se o mundo tivesse esquecido que a Grande Depressão não foi apenas fruto de especulação financeira, mas também de um protecionismo arrogante. É como se alguém tivesse decidido apagar da memória que tarifas podem transformar crises locais em catástrofes globais.
2025: Trump e o remake de um fracasso
Trump, com seu tarifaço de 2025, parece ter assistido ao filme de 1929 em câmera lenta e pensado: “isso dá uma boa ideia para refazer”. Seu governo ampliou tarifas contra produtos da China, da União Europeia e até de parceiros latino-americanos. O discurso é o mesmo: proteger empregos americanos.
Mas aqui entra a ironia: quem vive de slogans esquece de olhar os efeitos secundários. E os efeitos já começam a aparecer:
- Inflação em alta: tarifas encarecem produtos importados, mas como boa parte da cadeia produtiva depende de insumos estrangeiros, o aumento de preços se espalha para todo o consumo interno.
- Aumento do desemprego: setores que dependem de exportações sofrem retaliações e perdem mercados; agricultores americanos já sentem o baque da queda das exportações de soja e milho, assim como em 2018.
- Redução do PIB: retração do comércio global impacta diretamente a produção, investimentos e consumo.
- Perda de parceiros estratégicos: enquanto os EUA brigam com o mundo, China, Rússia e União Europeia fortalecem acordos entre si, marginalizando Washington.
- Volatilidade nos mercados: investidores fogem da incerteza, bolsas caem, títulos se valorizam artificialmente e o risco de uma recessão se torna iminente.
- E o mais trágico: tudo isso poderia ser previsto se alguém tivesse aberto um livro de História.
Axiomas de Zurique e o protecionismo burro
Max Gunther, em Os Axiomas de Zurique, traz lições que parecem escritas sob medida para desmontar o protecionismo.
- O Primeiro Axioma, sobre risco, diz: “O perigo é inseparável da oportunidade.” O tarifaço de 1930 e o de 2025 ignoram isso. Ambos apostaram em uma falsa segurança e não calcularam os riscos colaterais.
- O Axioma da mobilidade alerta: “Evite a repetição; o mundo está em constante mudança.” Em 1930, os EUA insistiram em aplicar lógicas do século XIX a um mundo interconectado. Em 2025, Trump faz o mesmo, como se a globalização pudesse ser desfeita por decreto.
- O Axioma da opinião adverte: “Desconfie da maioria.” E o que vemos são multidões de trumpistas, analistas e “especialistas” aplaudindo medidas que já falharam historicamente.
- O Axioma da intuição lembra que confiar em “instintos” sem dados é caminho para a ruína. Trump governa pela intuição, e seus bajuladores confundem isso com visão estratégica.
É impressionante como um livro de especuladores suíços do século XX consegue soar mais lúcido do que think tanks inteiros do século XXI.
Sarcasmo necessário: a burrice reciclada
O que temos aqui é uma reedição da estupidez. A humanidade, com sua memória curta, parece achar que protecionismo é remédio quando a História já provou ser veneno. O problema não é Trump sozinho — o problema é a multidão de bajuladores e analistas de bolso que tratam medidas medievais como se fossem modernidade.
É como assistir alguém enfiar os dedos na tomada em 1930, levar um choque mortal, e em 2025 outro sujeito repetir o gesto com orgulho, enquanto plateias batem palmas e dizem: “agora vai funcionar, porque é nosso líder que está fazendo”.
Os sintomas já estão no ar: inflação acelerando, consumo retraído, parceiros estratégicos se afastando. A equação é clara: menos comércio global = menos crescimento = mais desemprego. Se isso não soa como déjà-vu, talvez seja hora de rever as aulas de História.
O impacto global da estupidez americana
Os EUA não são uma economia isolada. Quando a maior potência do planeta decide brincar de tarifaço, o mundo inteiro paga a conta. Em 1929, a Grande Depressão espalhou desemprego e miséria para Europa, América Latina e Ásia. Governos caíram, regimes autoritários se fortaleceram (inclusive Hitler surfou na onda do caos econômico).
E agora? Se a História se repetir, podemos esperar:
- Mercados emergentes estrangulados: países exportadores, como Brasil, Argentina e México, perdem acesso ao mercado americano.
- Crise agrícola global: os EUA são grandes exportadores de grãos; com tarifas e retaliações, cadeias de abastecimento se desorganizam e preços disparam.
- Fortalecimento de blocos rivais: China e Rússia agradecem pelo presente. Enquanto os Estados Unidos brigam, eles fecham acordos e ampliam sua influência.
- Risco de recessão mundial: com a desaceleração americana, a roda global perde força. O FMI já fala em crescimento menor.
- Pressão social interna: aumento do desemprego e da inflação corrói o poder de compra dos norte-americanos, alimentando a polarização política.
Ou seja: estamos diante da mesma receita que nos levou ao desastre de 1929. Mas agora, com redes sociais e fake news, a ignorância se espalha em tempo real.
O que os trumpistas não percebem (ou fingem não perceber)
Os trumpistas e bajuladores dos Estados Unidos vivem no conforto da narrativa fácil. Eles acreditam que tarifas “punem a China” ou “defendem o trabalhador norte-americano”. O que não entendem é que tarifas punem, sim — mas punem antes de tudo o consumidor norte-americano, que paga mais caro por quase tudo.
Eles esquecem que cadeias produtivas são globais. Que o celular do qual eles postam seus memes patrióticos tem peças feitas em dez países diferentes. Que carros, roupas, remédios, chips e até comida dependem de comércio internacional. Mas é mais fácil acreditar em slogans do que encarar a complexidade do mundo real.
É aqui que a ironia se impõe: o patriotismo tarifário é, na prática, um imposto sobre o próprio povo.
O remake da burrice global
As tarifas de Trump em 2025 não são inovação, não são estratégia, não são coragem. São apenas um remake medíocre de um erro histórico que já conhecemos de cor. O tarifaço de 1929 alimentou a Grande Depressão. O de 2025 ameaça empurrar o mundo para uma recessão global, com inflação, desemprego, retração de PIB e perda de alianças estratégicas.
A humanidade, ao que parece, sofre de amnésia seletiva. E os analistas que deveriam alertar sobre os riscos preferem bajular narrativas políticas, como se ignorar a História fosse torná-la menos verdadeira.
Max Gunther já dizia: “o perigo é inseparável da oportunidade”. O problema é que governos míopes, em vez de administrar o risco, preferem criar mais perigo disfarçado de solução.
No fim, talvez a pergunta seja: quantas quebras de 1929 a humanidade ainda precisa viver até aprender que tarifas não protegem, apenas destroem?
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