Por Francisco Tramujas
A fala recente do empresário Lucas Neto, fundador da Tribo Concursos e da Tribo Invest, dividiu opiniões ao afirmar que não pretende mais contratar profissionais abaixo dos 30 anos, chamando-os de “preguiçosos”.
Esse tipo de generalização não apenas é injusta, mas também perigosa para quem lidera. Mesmo um fundador com muitos méritos pode em certo momento não estar olhando o seu universo como um todo. Ao fechar a porta para uma geração inteira, corre-se o risco de perder talentos, inovação e, principalmente, a capacidade de transformação que só a juventude traz.
A neurociência já mostrou que a plasticidade cerebral dos mais jovens os torna mais abertos a mudanças, aprendizados e novas formas de resolver problemas. Ou seja, se o mundo está em constante mutação, são justamente os mais jovens que carregam a capacidade de adaptação mais rápida. Não é preguiça: é a busca por sentido. O cérebro humano libera mais dopamina quando percebe propósito em uma tarefa — e é isso que engaja, não a simples cobrança autoritária.
Jack Welch, ex-CEO da GE e um dos maiores líderes empresariais do século XX, dizia: “Antes de ser líder, o sucesso é sobre você. Depois que se torna líder, o sucesso é sobre desenvolver os outros.”
E desenvolver não significa impor, mas adaptar a sua liderança à linguagem de cada geração, assim como no futebol Abel Ferreira fez, ao contrário de Vanderlei Luxemburgo.
No artigo que escrevi no LinkedIn, mostrei como Abel conseguiu manter a disciplina sem abrir mão da empatia, enquanto Luxemburgo cristalizou-se em um modelo que já não funcionava mais. Link do artigo aqui.
Quadro: O que motiva cada geração
| Geração | Ano de nascimento (aprox.) | Motivação central | Como engajar |
| Baby Boomers | 1946–1964 | Estabilidade, status, reconhecimento hierárquico | Dar voz à experiência, valorizar trajetória |
| Geração X | 1965–1980 | Segurança, independência, carreira sólida | Flexibilidade, respeito ao equilíbrio vida-trabalho |
| Millennials (Y) | 1981–1996 | Propósito, experiências, impacto social | Mostrar como o trabalho conecta-se ao mundo real |
| Geração Z | 1997–2012 | Inovação, autenticidade, pertencimento digital | Transparência, feedback rápido, senso de comunidade |
| Geração Alpha | 2013 em diante | Tecnologia imersiva, velocidade, impacto ambiental e social | Educação híbrida, gamificação, conexão emocional com causas globais |
A Geração Alpha será a mais conectada e digitalizada da história, criada desde o berço em um ambiente de inteligência artificial, algoritmos e personalização extrema. Estudos mostram que eles terão níveis ainda mais altos de seletividade de atenção, justamente porque crescerão em um mundo de excesso de estímulos. Para engajá-los, líderes precisarão ser ainda mais claros em propósito, sustentabilidade e impacto real.
Ou seja, se para a Geração Z a chave é autenticidade e feedback imediato, para a Geração Alpha será propósito radical e relevância instantânea.
7 pontos para reflexão sobre liderança e gerações
- Plasticidade vs. Rigidez – Jovens têm maior capacidade de adaptação cerebral; líderes que não aproveitam isso, perdem vantagem competitiva.
- Propósito engaja mais que salário – A neurociência mostra que o cérebro responde melhor a sentido e reconhecimento do que a recompensas materiais isoladas.
- Modelar-se como líder – Liderar jovens obriga o gestor a sair do automático, a se reinventar. Quem não evolui, fica obsoleto.
- Disciplina não é grito – Abel Ferreira prova que é possível liderar com firmeza, mas com diálogo e inteligência emocional.
- O risco do etarismo – Generalizar gerações é como dizer que toda empresa de tecnologia é uma “bolha”: simplificação perigosa.
- Jack Welch e o desenvolvimento humano – O líder de verdade mede seu sucesso pela capacidade de transformar os outros, não de rotulá-los.
- Empresas são organismos vivos – Quem não se conecta com as novas gerações, morre Como os Gigantes que Jim Collins analisou em How the Mighty Fall.
No fim, liderar jovens é um convite à transformação pessoal. É desafiador, sim. Mas também é uma oportunidade de ouro.
Generalizar uma geração como “preguiçosa” é escolher o caminho mais fácil — o da reclamação. O verdadeiro líder escolhe o caminho mais difícil — o da adaptação.
E você, prefere o modelo Abel Ferreira ou o modelo Luxemburgo?
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