Por Francisco Tramujas
Em 1914, o cartunista e engenheiro Rube Goldberg desenhou uma máquina absurdamente complexa para uma tarefa simples: limpar a boca com um guardanapo. A sequência envolvia colher, balde, papagaio, pedra, canhão… até que, no fim, o guardanapo encostava no rosto do sujeito.

Genial. Engraçado. E completamente inútil. O problema é que o que antes era sátira virou rotina corporativa.
Sim — vivemos rodeados de Goldbergs Corporativos: estruturas que tornam o simples em impossível, transformando decisões triviais em maratonas burocráticas embaladas por comitês, planilhas e “rituais de alinhamento”.
O vício da complexidade
Depois de duas décadas liderando áreas de marketing, vendas, inovação e estratégia, posso dizer:
- o problema nunca é a falta de ideia. É o medo da simplicidade.
Já vi:
- Reuniões para marcar reuniões.
- Briefings com 12 páginas para ações que duram 15 minutos.
- Softwares “inteligentes” que ninguém usa.
- E processos de aprovação que envolvem mais carimbos do que decisões.
Tudo isso gera movimento. Mas não gera entrega.
O Ciclo “Goldbergiano” da Inação
Criei esse termo porque é real:
- Surge um problema simples.
- Vem a sugestão de formar um comitê.
- Depois, criam um formulário para “padronizar”.
- Seguido por uma etapa de compliance.
- E por fim, um dashboard para “acompanhar a evolução”.
Quando você percebe, o problema foi engavetado e virou parte da paisagem. A burocracia venceu.
Case real: o carimbo do almoxarifado
Em uma indústria na qual eu atuava, certa vez identifiquei que para aprovar uma ativação no PDV com um simples display promocional, o processo envolvia:
- Aprovação do gerente de produto.
- Validação do jurídico.
- Alinhamento com o financeiro.
- E pasme: carimbo físico do almoxarifado, pois o expositor era “ativo controlado”.
Enquanto isso, o concorrente colocava a promoção em prática. Redesenhamos o fluxo com critérios claros de valor e impacto, e a aprovação passou a ocorrer em 48h.
Resultado: ações mais ágeis e vendas dobradas.
A neurociência da procrastinação corporativa
O cérebro adora repetição.
É o chamado viés da familiaridade: quanto mais tempo fazemos algo do mesmo jeito, mais seguro ele parece — ainda que ninguém saiba por que aquilo existe. É por isso que a simplificação assusta: ela exige pensar, assumir riscos e, acima de tudo, decidir.
A fantasia do processo
Muitas vezes, o processo é apenas uma proteção emocional contra o erro. Se der certo, todos participaram. Se der errado, a culpa é do processo.
Como diria Peter Drucker:
“Não há nada mais inútil do que fazer eficientemente aquilo que não deveria ser feito.”.
Coragem para simplificar
Imagine uma cultura em que o bônus vai para quem elimina um processo inútil. Em que descomplicar é reconhecido como competência estratégica. E que confiar no bom senso volta a ser virtude — não risco. Dá para fazer.
Mas exige uma coragem cada vez mais rara no mundo corporativo: a coragem de cortar o absurdo pela raiz.
O que Goldberg nos ensinou?
Goldberg nos ensinou — com humor — que o ser humano tem uma incrível capacidade de complicar o óbvio. Mas no ambiente corporativo, essa comédia vira drama quando a complexidade substitui a entrega.
Questione. Simplifique. Entregue.
Essa é a verdadeira tríade da performance.
Porque no fim das contas, a inovação pode estar menos na nova tecnologia… e mais na velha e esquecida arte de usar o bom senso.
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